São Carlos Lwanga e companheiros mártires — Memória | Tempo Comum
Imagine um velório silencioso numa cidade pequena do interior. O corpo está lá, a família ao redor, e alguém sussurra para o filho mais novo: "Ele se foi. Acabou." A criança olha para a mãe, que não responde com palavras. Só segura a mão do menino com mais força. Porque há coisas que a gente sabe antes de conseguir explicar — que amor não cabe dentro de caixão.
É dessa intuição que Jesus parte hoje.
Os saduceus chegam com uma armadilha bem montada. Sete irmãos, uma viúva, e uma pergunta capciosa sobre a ressurreição. O raciocínio deles é claro: se a lógica do mundo presente não resolve esse problema, então a ressurreição não pode existir. Eles usam as Escrituras como um quebra-cabeça impossível de montar — e acham que, se ninguém resolve o quebra-cabeça, a resposta é que o quadro não existe.
Jesus não cai na armadilha. Ele muda o chão da conversa.
"Deus não é Deus de mortos, mas de vivos."
Essa frase, tirada de Marcos 12,27, é uma das mais densas do evangelho. Quando Deus fala a Moisés na sarça ardente — séculos depois de Abraão, Isaac e Jacó já terem morrido —, ele diz "Eu sou", não "Eu fui". Presente. Ativo. Sustentando uma relação que não terminou com o último suspiro de cada um deles.
O argumento de Jesus não é teológico no sentido acadêmico. É relacional. Deus não abandona quem ama. E se Deus não abandona, então a morte não é o ponto final — é uma vírgula numa frase que ele ainda está escrevendo.
No Brasil de hoje, essa palavra chega funda. Muita gente carrega luto que não termina: o luto de quem perdeu alguém antes do tempo, o luto de quem perdeu uma versão de si mesmo — aquele projeto que não deu certo, aquele relacionamento que se desfez, aquele sonho que ficou pelo caminho. Existe um espírito de derrota que vai se instalando devagar, e que susurra a mesma coisa que os saduceus diziam: isso não tem saída, não tem ressurreição possível para essa situação.
Paulo também conhecia esse peso. Na primeira leitura de hoje, ele escreve de dentro de uma prisão: "Esta é a causa pela qual estou sofrendo, mas não me envergonho, porque sei em quem coloquei a minha fé." Não é ingenuidade. É âncora. Paulo não diz que as circunstâncias melhoraram. Ele diz que sabe em quem confia — e isso é suficiente para não se envergonhar.
São Carlos Lwanga e seus companheiros, que a Igreja celebra hoje, viveram isso até o extremo. Jovens catequistas ugandeses, mortos por se recusarem a abandonar a fé, deixaram um testemunho que a Igreja lembra até hoje. Eles podiam ter se curvado. Escolheram a sarça ardente — a presença de um Deus que não apaga.
Hoje, o convite é simples: identifique uma área da sua vida onde você acredita que "acabou". Um relacionamento, uma saúde, uma esperança. Leve esse lugar diante de Deus — não para pedir milagre imediato, mas para lembrá-lo de que ele é Deus de vivos. De você. Agora.
E se alguém próximo estiver carregando esse mesmo peso, talvez a melhor oração seja a do filho no velório: não dizer nada. Só segurar a mão com mais força.
Palavra do Senhor. Graças a Deus.
Que Deus abençoe sua oração.