Saiu o resultado do concurso. O PDF tem cento e poucas páginas, e você não lê nenhuma. Aperta Ctrl+F, digita seu nome, e o coração dispara enquanto a barrinha procura. Quem já passou por isso sabe: naquele segundo, nada mais importa. Nem a nota, nem a colocação. Só a pergunta: meu nome está ali?
No Evangelho, os setenta e dois discípulos voltam da missão eufóricos, contando vantagem: "Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome". Tinham resultado para mostrar. Feitos, histórias impressionantes. E Jesus, em vez de dar os parabéns pelo desempenho, muda o foco: "não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu".
É uma correção delicada. Jesus não diz que a missão foi inútil. Diz que ela não é o fundamento da alegria. O que você faz pode dar certo ou errado, pode ser aplaudido ou ignorado. O seu nome escrito no céu não depende do boletim da semana. Já saiu. Está lá.
Estamos no Tempo Comum, e hoje o Brasil celebra a memória dos mártires de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte: os padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, o leigo Mateus Moreira e seus companheiros, mortos em 1645 por causa da fé católica. Eram gente simples de pequenas comunidades potiguares: lavradores, pais e mães de família, até crianças. Conta a tradição que Mateus Moreira, enquanto lhe arrancavam o coração pelas costas, dizia: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento".
Nenhum deles tinha currículo para mostrar. Não expulsaram demônios em praça pública, não escreveram livros. Mas sabiam onde estava escrito o nome deles, e isso bastou para não negarem quem eram na hora mais escura. O Papa Francisco os canonizou em 2017, e hoje eles são lembrados como os protomártires do Brasil.
A primeira leitura fecha a história de Jó com uma frase de quem finalmente encontrou o que procurava: "Conhecia o Senhor apenas por ouvir falar, mas, agora, eu o vejo com meus olhos." Jó passou o livro inteiro discutindo, argumentando, pedindo explicação. No fim, não recebeu explicação. Recebeu presença. E isso mudou tudo.
A gente vive numa cultura de desempenho. O valor de alguém é medido pela produtividade do mês, pelas metas batidas, pelo engajamento do último post. Até na vida de fé isso aparece: quantos terços rezei, quantas missas fui, quantas pessoas ajudei. Nada disso é ruim. Mas quando vira a fonte da alegria, basta uma semana ruim para tudo desmoronar. Você perdeu a paciência com os filhos, esqueceu de rezar três dias seguidos, não entregou o relatório no prazo, e parece que foi riscado da lista.
Não foi.
Deus não apaga nomes por causa de uma semana ruim. Ele não trabalha com a lógica do ranking, em que quem cai de produção perde a vaga. O seu nome continua lá, escrito com a mesma tinta do dia em que você foi batizado.
Jesus, naquele mesmo momento, "exultou no Espírito Santo" e agradeceu ao Pai por revelar as coisas do Reino "aos pequeninos". Os pequeninos são justamente os que não têm muito para mostrar. Os lavradores de Cunhaú. O Jó sentado no pó. Você, no dia em que nada saiu como planejado.
Hoje, pegue um papel qualquer, pode ser o verso de uma nota fiscal, e escreva seu nome à mão, devagar, com letra caprichada. Guarde na carteira ou na capinha do celular. Toda vez que bater aquela sensação de que você só vale o que entrega, olhe para ele e lembre: esse nome já está escrito num lugar onde nenhuma meta alcança. E, se puder, reze um Pai-Nosso pelos cristãos que ainda hoje sofrem por causa da fé.
Que Deus abençoe sua oração.