Todo mundo tem um aplicativo que se recusa a atualizar. A tela avisa, insiste, pisca aquele pontinho vermelho, e você adia. Não é preguiça exatamente. É que você já sabe onde fica cada botão. A versão nova vai mudar o lugar das coisas, e mudar o lugar das coisas cansa. Melhor ficar com o que já funciona mais ou menos.
Estamos na 22ª semana do Tempo Comum, esse período longo e verde em que a liturgia não pede nada extraordinário de você. Só pede que você continue caminhando. E é justamente nesse chão de todo dia que Jesus solta uma frase que parece um comentário sobre bebida e é, na verdade, um raio-x do coração humano.
Os fariseus reclamam: os discípulos de João jejuam, os nossos jejuam, e os seus comem e bebem. É uma reclamação sobre método. Vocês não estão fazendo do jeito certo. Jesus responde com imagens de tecido e de vinho: "Ninguém coloca vinho novo em odres velhos; porque, senão, o vinho novo arrebenta os odres velhos e se derrama." E então vem a frase mais desconcertante de todas, quase um suspiro: "E ninguém, depois de beber vinho velho, deseja vinho novo; porque diz: o velho é melhor."
Repare que Jesus não está condenando ninguém aqui. Ele está descrevendo. É assim que a gente é. Depois que o paladar se acostuma, o novo parece áspero. Depois que a fé vira rotina, qualquer coisa que mexa na rotina parece ameaça.
E o mais curioso é que o vinho novo do Evangelho não é uma regra nova. É uma pessoa. É Jesus sentado à mesa, comendo com quem ninguém convidava, chamando aquilo de festa de casamento. Os fariseus queriam encaixar essa alegria dentro do calendário de jejuns que já conheciam. Não coube. Nunca ia caber.
A primeira leitura toca no mesmo nervo por outro caminho. Paulo escreve aos coríntios que estão medindo uns aos outros, comparando líderes, distribuindo notas. E ele desmonta o jogo: "Quem me julga é o Senhor. Portanto, não queirais julgar antes do tempo." Paulo se apresenta como administrador dos mistérios de Deus, e do administrador se exige uma coisa só: fidelidade. Não desempenho, não aprovação, não medalha. Fidelidade.
Julgar antes do tempo é exatamente o que a gente faz quando decide que o velho é melhor. A gente julga a versão nova antes de prová-la. Julga a mudança de setor no trabalho antes do primeiro dia. Julga a conversa difícil com o irmão antes de ligar. Julga a possibilidade de recomeçar uma amizade porque já sabe, de antemão, como aquilo termina.
O odre velho é a nossa certeza sobre como as coisas são. E o problema não é o odre ter idade. É ele ter perdido a elasticidade, a capacidade de ceder um pouco quando algo dentro dele fermenta.
Talvez a pergunta de hoje não seja "o que preciso mudar na minha vida". Essa pergunta é grande demais e por isso é fácil de adiar. Talvez a pergunta seja menor e mais incômoda: onde eu já decidi o resultado antes de dar a chance?
O salmo de hoje oferece o antídoto numa linha: "Deixa aos cuidados do Senhor o teu destino; confia nele, e com certeza ele agirá." Confiar é abrir espaço. É admitir que Deus pode agir de um jeito que você não previu no seu roteiro.
Hoje, escolha uma coisa pequena sobre a qual você já tinha veredito fechado e reabra o caso. Pode ser uma pessoa que você catalogou como impossível e para quem você vai mandar uma mensagem sem esperar resposta. Pode ser um convite que você recusa sempre e que hoje você aceita. Pode ser um jeito de rezar que você nunca tentou porque o seu jeito já está bom.
Não precisa jogar fora o odre velho. Só experimente, uma vez, deixar ele ceder.
Que Deus abençoe sua oração.