Quem mora de aluguel conhece o ritual. O telefone toca e é a imobiliária: o proprietário quer passar aí na quinta para uma vistoria. De repente, você olha a casa com outros olhos. A mancha de infiltração que você fingia não ver. O prego que você bateu na parede sem perguntar. A torneira pingando há meses. Durante um tempo, você esqueceu que a casa não era sua. E agora alguém vem lembrar.
Neste 27º Domingo do Tempo Comum, as leituras falam de uma vinha e de quem cuida dela. Isaías canta a história de um amigo que fez tudo por sua plantação: cercou, limpou as pedras, escolheu as melhores mudas, construiu uma torre. E pergunta, com a voz de quem ama e se decepciona: "O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?"
Jesus retoma a imagem e acrescenta um detalhe decisivo. O dono planta a vinha, prepara tudo e depois "arrendou-a a vinhateiros, e viajou para o estrangeiro". Os trabalhadores recebem uma vinha pronta. Não compraram, não plantaram, não construíram. Só precisavam cuidar e entregar os frutos no tempo certo. Mas, com o passar dos meses, a ausência do dono vira esquecimento, e o esquecimento vira posse. Quando os empregados chegam para buscar a colheita, os vinhateiros reagem como quem defende o que é seu. E quando chega o filho, o raciocínio é assustador: "Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse da sua herança!"
A parábola é dura, e foi dita a líderes religiosos que tinham se acostumado a mandar na vinha de Deus. Mas o problema de fundo é muito humano e muito atual: a gente se esquece de que é inquilino.
Seu corpo, seu tempo, seus talentos, seus filhos, o planeta onde você pisa, até a fé que recebeu: nada disso você fabricou. Tudo foi entregue pronto, cercado, cuidado por mãos que vieram antes. E é tão fácil começar a tratar a vida como propriedade privada. O trabalho vira só mérito meu. O dinheiro vira só meu. A família vira território que ninguém pode questionar. Quando alguém aparece lembrando que existe um dono, a gente se irrita, desconversa ou manda embora.
Só que a notícia desta parábola não é o castigo. É a paciência. O dono manda um empregado, depois outros, depois mais outros, e por fim o próprio filho. Ele insiste. Não desiste da vinha. E mesmo quando o filho é jogado para fora, Deus transforma o descarte em fundamento: "A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular". Aquilo que foi jogado fora do muro virou a base da casa inteira.
É aqui que a segunda leitura entra como um alívio. Paulo escreve aos filipenses: "Não vos inquieteis com coisa alguma, mas apresentai as vossas necessidades a Deus". Quem sabe que é inquilino vive mais leve. Não precisa garantir tudo sozinho, não precisa defender a vinha como se ela fosse desmoronar sem você. Precisa cuidar bem do que recebeu e confiar no dono. E aí, promete Paulo, "a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações".
Imagine se Deus marcasse uma vistoria para hoje à tarde, não como fiscalização, mas como visita de quem ama a vinha e quer ver o que floresceu. Que fruto você teria para entregar? Talvez uma conversa paciente com seu filho adolescente. Talvez um trabalho bem feito mesmo sem ninguém olhando. Talvez um perdão que você vem adiando há tempo demais.
Hoje, domingo, escolha uma coisa que você trata como "sua" e devolva simbolicamente a Deus. Pode ser o seu tempo livre desta tarde: ofereça uma hora dele a alguém que precisa de companhia. Pode ser o celular: deixe-o numa gaveta durante o almoço em família. Antes de dormir, diga numa frase simples: "Senhor, a vinha é tua. Obrigado por me deixar cuidar dela."
Que Deus abençoe sua oração.