Todo prédio tem aquele morador que sabe o regulamento de cor. Não pode estender toalha na sacada, não pode usar a churrasqueira fora do horário, não pode segurar o portão da garagem para o vizinho. Ele não é uma pessoa ruim. Ele só descobriu uma coisa confortável: é bem mais simples cuidar da regra do que cuidar de gente. A regra não chora, não tem fome, não exige que você olhe ninguém nos olhos.
Estamos na 22ª semana do Tempo Comum, esse tempo verde e sem festa grande, em que a fé não tem uma solenidade para se apoiar e precisa acontecer no meio da semana, no meio do trabalho, no meio do caminho. E é bem no meio de um caminho que Lucas coloca a cena de hoje.
Um sábado. Jesus atravessa uma plantação de trigo com os discípulos. Eles vão arrancando espigas e debulhando com as mãos enquanto andam. Não é banquete, é beliscada de quem está andando há horas com o estômago vazio. Alguns fariseus veem e perguntam: "Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado?"
Repare no que a pergunta não enxerga. Ela não enxerga a fome. Ela vê o gesto, mede o gesto contra o texto e conclui. Ninguém pergunta se aqueles homens comeram de manhã. Ninguém pergunta quanto tempo eles estão na estrada.
Jesus responde lembrando de Davi, que entrou na casa de Deus, pegou os pães reservados aos sacerdotes, comeu e ainda dividiu com os companheiros famintos. E encerra com uma frase que reorganiza tudo: "O Filho do Homem é senhor também do sábado."
Não é permissão para fazer o que der na cabeça. É outra coisa, mais delicada. O sábado tinha nascido como presente: um dia para o corpo descansar e a alma respirar. Quando a regra passa a pesar mais do que a pessoa que ela deveria proteger, algo se inverteu no meio do caminho. Jesus não está derrubando a lei. Está devolvendo a ela o lugar de serva.
Paulo, na carta aos Coríntios, mexe na mesma ferida por outro ângulo. A comunidade estava se dividindo em grupinhos, cada um se achando mais espiritual que o outro, e ele pergunta: "O que tens que não tenhas recebido?" É uma pergunta que desarma. Se a sua fé, o seu conhecimento da liturgia, o seu tempo de igreja, tudo isso foi recebido de graça, então não sobra material para se sentir superior a ninguém. Sobra gratidão. E gratidão costuma deixar a gente mais macio com as pessoas, não mais rígido.
O detalhe é que a tentação de virar fiscal é bem mais próxima do que parece. Ela aparece no grupo da paróquia no WhatsApp, quando alguém comenta a roupa de quem foi à missa. Aparece no comentário sobre a mãe que saiu no meio da celebração porque o filho estava chorando. Aparece na crítica ao colega que chegou atrasado de novo, sem ninguém saber que ele levanta às quatro da manhã para deixar a filha na casa da avó. Aparece dentro da gente, aliás, do jeito mais silencioso: como aquela satisfação pequena de estar certo.
Nas plantações de trigo da nossa vida, quase sempre existe uma fome que a regra não vê. Cansaço, luto, uma conta que não fechou, uma noite sem dormir. Jesus olha primeiro para a fome. Depois, se for o caso, para o resto.
Hoje, quando bater aquela vontade de corrigir alguém, segure a frase por três segundos e faça outra pergunta antes: "Você está bem?" Pode ser para o colega de trabalho, para o motorista de aplicativo, para alguém da sua casa. Só isso. Deixe a pessoa responder antes de você julgar. Você vai se surpreender com a quantidade de gente que estava simplesmente com fome.
Que Deus abençoe sua oração.