Quarta-feira. A semana já chegou ao meio, e talvez você sinta exatamente isso: estamos no meio de muitas coisas. De projetos que não terminaram, de conversas que ficaram pela metade, de cansaços que se acumulam. É nesse meio do caminho que a liturgia deste Tempo Pascal nos alcança com uma das imagens mais belas que Jesus nos deixou: a videira e os ramos.
Antes de chegarmos ao Evangelho, a primeira leitura já nos oferece um retrato muito humano da Igreja nascente. Em Atos dos Apóstolos, vemos Paulo e Barnabé no meio de uma crise. Alguns pregavam que a salvação dependia de seguir toda a Lei de Moisés, incluindo a circuncisão. Havia confusão, discussão acalorada, desentendimento entre irmãos. A comunidade não sabia bem como agir, e então tomou uma decisão sábia: subiu a Jerusalém para tratar o assunto com os apóstolos e os anciãos, junto.
Essa cena nos lembra que a Igreja sempre precisou, e sempre precisará, de discernimento comunitário. Os problemas reais não desaparecem por decreto — eles pedem escuta, diálogo, paciência e, acima de tudo, um centro de gravidade compartilhado. E esse centro é exatamente o que Jesus revela no Evangelho de hoje.
"Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor."
Jesus não fala isso numa sala de conferências. Fala na véspera de sua morte, num jantar de despedida, para pessoas que em poucas horas vão dispersar com medo. É para elas — e para você, agora — que ele diz: permaneça em mim.
A imagem da videira é concreta e sem margem para romantismo vago. Um ramo cortado não "vai mal", não "fica fraco": seca. Perde a seiva. Perde a vida. O ramo não tem vida própria independente do tronco — e Jesus não está fingindo que tem. Ele diz sem eufemismo: "Sem mim, nada podeis fazer."
Mas o que significa permanecer? No contexto do Evangelho de João, permanecer em Jesus é permanecer na sua palavra, no seu amor, na sua comunidade. Não é um estado de transe espiritual reservado a contemplativos. É uma escolha repetida, cotidiana, que se concretiza em gestos simples: a oração que você faz antes de começar o dia, a palavra de cuidado que você oferece quando está cansado, a honestidade que você mantém quando seria mais fácil ceder.
E o Pai, diz Jesus, cuida do ramo que permanece: ele o "limpa" — poda, em linguagem vitícola — para que dê mais fruto ainda. A poda não é punição. É atenção de agricultor. Quem nunca pasou por uma estação de corte sabe que ela parece morte antes de ser vida nova.
Nós vivemos num tempo em que a desconexão é o padrão. Redes sociais nos prometem presença e entregam dispersão. Produtividade nos promete realização e frequentemente entrega vazio. Muitos de nós nos sentimos exatamente como ramos que foram cortados sem saber quando — funcionando por inércia, sem conseguir identificar onde foi que perdemos a seiva.
A boa notícia pascal é que a videira continua ali. O convite de Jesus não tem prazo de validade. Não importa se você está há anos sem orar de verdade, se a fé ficou pequena demais pra caber nas suas dúvidas, se você mesmo esqueceu quando foi que deixou de sentir aquele fruto crescendo. O ramo pode ser enxertado de volta.
A Igreja dos Atos fez exatamente isso quando entrou em crise: voltou ao centro, reuniu-se ao redor do essencial, buscou discernir juntos. Não resolveu tudo naquele dia — o Concílio de Jerusalém foi o início de um longo aprendizado. Mas retomou a direção.
Hoje, antes de encerrar o dia, escolha um momento — pode ser agora, pode ser à noite — para sentar em silêncio e dizer, com suas palavras: "Senhor, quero permanecer em você. Mostre-me onde estou seco."
Não precisa ser longo. Não precisa ser bonito. A videira não exige eloquência do ramo — exige presença.
E nessa presença simples, o fruto começa a crescer de novo.
Que Deus abençoe sua oração.