Sabe aquele momento no fim do dia, quando você senta no sofá depois de horas correndo e percebe que está simplesmente exausto? Não só o corpo cansado, mas algo por dentro meio abatido, como se você tivesse dado tudo o que tinha e ainda faltasse. A gente conhece bem essa sensação. E é justamente aí, nesse tipo de cansaço, que o Evangelho de Mateus nos coloca uma cena que aquece o coração.
Jesus está andando pelas cidades e vilarejos, ensinando, curando, aproximando-se das pessoas. E aí vem uma frase que muda tudo: "Vendo as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor" (Mt 9,36). Repare no que ele faz primeiro. Ele vê. Antes de resolver qualquer coisa, ele olha e deixa o olhar se demorar. Não passa reto. Não julga o cansaço daquela gente como preguiça ou falta de fé. Ele se comove. A palavra que Mateus usa é forte, fala de uma compaixão que mexe nas entranhas, aquele aperto que a gente sente quando alguém que a gente ama está sofrendo.
É bonito pensar que Deus olha para você desse jeito. Não como um fiscal conferindo se você cumpriu a lista de tarefas, mas como alguém que se importa de verdade com o seu cansaço. Neste Tempo Comum, esse tempo verde e sem grandes festas, a liturgia nos convida exatamente a isso: descobrir Deus no meio do dia a dia, no ordinário, nas multidões anônimas das quais a gente faz parte. Verde é a cor da esperança que brota devagar, no meio das tarefas de sempre.
A primeira leitura, do profeta Oséias, mostra o outro lado da moeda. O povo tinha construído ídolos de ouro e prata, coisas fabricadas com as próprias mãos, e depois confiava neles. O salmo é quase irônico: esses ídolos "têm boca e não podem falar, têm olhos e não podem ver". A gente ri, mas quantas vezes deposita o coração em coisas que não conseguem devolver nada? A conta bancária que promete segurança, a aprovação dos outros que nunca é suficiente, o desempenho perfeito que sempre escorre pelos dedos. Ídolos mudos, que não olham de volta.
E a diferença é essa. O Deus de Jesus não é um bezerro de metal parado num altar. É alguém que caminha, que vê, que se compadece e que age. Diante daquela multidão cansada, ele não faz um discurso sobre disciplina. Ele diz aos discípulos: "A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Peçam ao dono da colheita que envie trabalhadores" (Mt 9,37-38). Ou seja: tem muita gente por aí precisando de um olhar de compaixão, e Jesus conta com a gente para isso. Ele não olha a multidão com pena distante, olha com esperança, vendo já a colheita que pode vir.
Talvez você esteja hoje mais do lado da multidão cansada do que do lado dos trabalhadores. Tudo bem. Comece deixando Jesus olhar para você. Antes de qualquer coisa, você é alguém por quem ele se comove.
Aqui vai o convite para hoje. Escolha uma pessoa do seu convívio que anda visivelmente cansada ou abatida, aquele colega calado, o parente sobrecarregado, o vizinho que some. Ainda hoje, mande uma mensagem ou puxe uma conversa curta só para perguntar como ela realmente está, e ouça sem pressa de resolver. Seja, por alguns minutos, aquele olhar que se demora e se importa. É assim, num gesto pequeno e concreto, que a colheita de Deus começa a acontecer no meio do seu dia comum.
Que Deus abençoe sua oração.