Tem gente que monta a árvore genealógica da família e depois se arrepende. Começa animado, procurando o sobrenome italiano, o bisavô que veio de navio. E aí aparece o tio que sumiu, o casamento desfeito, a história que a avó sempre desconversou. A gente prefere as fotos bonitas na parede da sala. O resto fica na gaveta.
Hoje a Igreja celebra a Natividade de Nossa Senhora, o nascimento de Maria. É uma festa rara: fora de Jesus e de João Batista, Maria é a única pessoa cujo nascimento a Igreja comemora. E, para celebrar esse dia, a liturgia não escolheu uma cena delicada de berço. Escolheu uma lista de nomes.
Quarenta e dois nomes. Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó, e assim por diante até chegar em José. Parece o tipo de página que a gente pula. Mas Mateus não escreveu isso por acaso, e o que ele deixou na lista diz mais do que os nomes.
Ele podia ter feito uma genealogia limpa, só com os patriarcas e os reis. Em vez disso, incluiu Tamar, que se disfarçou para conseguir justiça. Raab, que era prostituta em Jericó. Rute, a estrangeira de Moab. E, sobre o rei Davi, escreveu uma frase que ninguém gostaria de ver no álbum de família: "Davi gerou Salomão, daquela que tinha sido a mulher de Urias". Nem o nome de Betsabeia aparece. Aparece o crime.
É nessa linhagem cheia de remendos que Maria nasce. Ela não veio de uma família perfeita nem de um povo triunfante. Veio do fim de uma lista comprida de gente comum, gente que errou feio, gente que foi levada para o exílio na Babilônia e voltou sem nada. Miqueias já tinha avisado: "Tu, Belém de Éfrata, pequenina entre os mil povoados de Judá, de ti há de sair aquele que dominará em Israel". Deus escolhe o miúdo. Sempre escolheu.
O salmo de hoje diz: "Sois meu apoio desde antes que eu nascesse, desde o seio maternal, o meu amparo". Antes de qualquer conquista sua, antes de você ter feito qualquer coisa que valha ser contada, Deus já estava lá segurando.
Repare no ponto em que a lista se quebra. Depois de quarenta e um "gerou", Mateus muda o verbo: "Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo". José não gera. Maria dá à luz. A cadeia humana chega até ali e, no último elo, quem age é Deus. E o nome que fecha tudo é Emanuel, "Deus está conosco".
Isso muda o jeito de olhar para a sua própria história. Você provavelmente tem capítulos que não conta no trabalho, e talvez nem no grupo da família. A separação, a dívida, o ano em que tudo desandou, o parente com quem você não fala há tempo. A gente carrega esses trechos como se fossem provas de que Deus escolheu a casa errada.
A genealogia de Jesus responde outra coisa. Deus não entrou no mundo por uma linhagem impecável. Entrou por Tamar, por Raab, pelo exílio, por uma moça de Nazaré que nasceu num lugar sem importância. A história torta não impediu a salvação. Foi por dentro dela que a salvação veio.
Hoje, no aniversário de Maria, faça uma coisa pequena: pegue o celular e mande uma mensagem para aquele parente com quem a relação esfriou. Não precisa resolver nada, não precisa explicar o passado. Pergunte como ele está e espere a resposta. É assim que Deus costuma trabalhar nas famílias: um nome de cada vez, sem apagar nenhum.
Que Deus abençoe sua oração.