Onze e meia da noite, apartamento no terceiro andar. O interfone toca: é o irmão do Jorge, que chegou do interior de Minas sem avisar, depois de nove horas de estrada, com uma mochila nas costas e fome. Jorge abre a geladeira: meia caixa de leite, um limão, um pote de margarina vazio. O mercado da esquina fechou às dez. Ele respira fundo, desce um lance de escada e toca a campainha da dona Cida, que aparece de camisola e cara de sono. "Desculpa a hora. A senhora teria um pão, um ovo, qualquer coisa?"
Quem já precisou bater na porta de alguém fora de hora conhece o tamanho desse constrangimento. E é exatamente essa cena que Jesus escolhe para falar de oração.
Seguimos no Tempo Comum, lendo o Evangelho de Lucas quase dia após dia, e hoje Jesus conta de um homem que vai à casa do amigo à meia-noite: "Amigo, empresta-me três pães, porque um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer". Lá de dentro vem a resposta que qualquer um daria: "Não me incomodes! Já tranquei a porta". Mas o homem continua batendo. E Jesus diz que o outro vai levantar, se não por amizade, "ao menos por causa da impertinência dele".
Impertinência. Jesus elogia justamente aquilo que a gente aprendeu desde criança a evitar. Não incomodar, não insistir, não dar trabalho. Muita gente leva essa boa educação para dentro da oração: pede uma vez, bem baixinho, e depois desiste, achando que já está abusando da paciência de Deus.
Só que repare num detalhe da parábola: o homem não está pedindo pão para si. Está pedindo para alimentar outro. A insistência dele nasce de um amor que não aceita deixar o hóspede com fome. Talvez seja por isso que ela não soa como capricho. É a teimosia de quem carrega alguém no coração.
Depois Jesus deixa a parábola e fala direto: "pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto." E termina com uma comparação que desarma: se um pai, com todos os seus limites, não dá uma cobra ao filho que pede peixe, "quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!"
Na primeira leitura, Paulo faz aos gálatas uma pergunta que ilumina essa promessa: "Recebestes o Espírito pela prática da Lei ou pela fé através da pregação?" O Espírito não é salário por bom comportamento. É presente. Não se conquista batendo metas. Se recebe pedindo, com as mãos abertas de quem sabe que não tem nada na geladeira.
E aqui existe uma diferença importante entre a porta do vizinho e a porta de Deus. Dona Cida estava deitada, cansada, e mesmo assim abriu. Deus não está de camisola atrás de uma porta trancada, torcendo para você desistir e ir embora. A parábola usa o amigo relutante para mostrar, por contraste, o quanto o Pai está disposto. Se até quem foi acordado à meia-noite levanta, imagine aquele que nunca dorme.
Talvez você esteja cansado de pedir a mesma coisa. A saúde de alguém da família. Um emprego que não chega. Um filho que se afastou da fé. Uma paz que demora. A Palavra de hoje não promete que a resposta virá no formato que você imagina, mas garante que bater não é falta de educação. É confiança de amigo.
Hoje, escolha uma pessoa por quem você já quase desistiu de rezar. Volte à porta. Diga o nome dela a Deus, em voz baixa, antes de dormir, como quem toca a campainha outra vez à meia-noite. E peça, junto com o pão que ela precisa, aquilo que Jesus garantiu que o Pai tem prazer em dar: o Espírito Santo.
Que Deus abençoe sua oração.