Você já teve a sensação de que alguém estava perto, mas não conseguiu acreditar? Uma mensagem inesperada, uma porta que se abre na hora certa, um abraço que chega quando você já tinha desistido de pedir. A gente olha e pensa: não pode ser. Deve ser coincidência. Deve ser a minha cabeça.
Os discípulos fizeram exatamente isso. Jesus apareceu no meio deles, vivo, de pé, e disse: “A paz esteja convosco.” E a reação deles? Medo. Acharam que era um fantasma. Algo irreal, uma projeção do desejo, uma alucinação coletiva de gente que sentia saudade demais.
Estamos na Oitava da Páscoa, esses dias em que a Igreja celebra a Ressurreição como se fosse um único domingo prolongado. E o Evangelho de Lucas nos coloca dentro daquela sala onde os discípulos estavam trancados, oscilando entre alegria e incredulidade.
Jesus percebe o medo deles. E faz algo que nenhum fantasma faria: mostra as mãos e os pés. “Tocai em mim e vede. Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho.” E como se isso não bastasse, pergunta: “Tendes aqui alguma coisa para comer?” Deram-lhe um pedaço de peixe assado. E ele comeu. Ali, diante deles.
Fantasmas não comem peixe.
Esse detalhe é de uma simplicidade desconcertante. O Ressuscitado não aparece envolto em luz cósmica, não flutua, não faz um discurso grandioso sobre o além. Ele pede comida. Come um pedaço de peixe. É o gesto mais humano, mais cotidiano, mais concreto possível. Como se dissesse: eu não sou uma ideia. Eu não sou um conceito. Eu sou eu mesmo.
Na primeira leitura, Pedro está no Pórtico de Salomão depois de curar um paralítico. E o povo olha para ele e João com espanto, como se eles fossem os autores do milagre. Pedro corrige na hora: “Por que ficais olhando para nós, como se tivéssemos feito este homem andar com nosso próprio poder?” Não fomos nós. Foi o Nome. O Nome de Jesus, o mesmo que vocês entregaram e rejeitaram diante de Pilatos.
Repare: nos dois textos, a tentação é a mesma. Os discípulos olham Jesus e pensam que é fantasma. O povo olha Pedro e acha que é mágico. Em ambos os casos, a verdade está ali, presente, concreta, real — mas as pessoas preferem a explicação mais confortável. É mais fácil acreditar num fantasma do que num ressuscitado. É mais fácil admirar um homem poderoso do que reconhecer um Deus que age.
Talvez a gente faça isso mais do que percebe. Quando algo bom acontece, a gente atribui à sorte, ao esforço, à coincidência. Quando alguém é curado — de uma doença, de um vício, de um casamento partido — a gente procura a explicação mais “razoável”. Deus fica como última hipótese, se sobrar.
Mas Jesus insiste em ser real. Não aceita ser reduzido a uma metáfora, a uma tradição bonita, a um valor cultural. Ele mostra as mãos. Mostra os pés. Come o peixe. E depois abre a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras. A fé não dispensa a razão — ela a ilumina.
Hoje, presta atenção nos “peixes” que Deus come diante de você. Os sinais concretos de que ele está presente: a paz que aparece sem explicação, a palavra certa que chega na hora certa, o perdão que você não merecia mas recebeu. Não são fantasmas. Não são coincidências. É Ele mesmo.
Que Deus abençoe sua oração.