Você já viu uma mãe segurando as mãos do filho pequeno que ainda cambaleia pela sala? Ela caminha de costas, curvada, os braços esticados, o corpo todo dizendo "pode vir, eu estou aqui". A criança dá dois passos e cai sentada. A mãe ri, levanta de novo, recomeça. Ninguém conta esses passos. Ninguém guarda mágoa da queda. Só existe aquele desejo de ver a criança andando.
É exatamente essa cena que Deus usa para falar de você. Não é uma imagem de trono e distância, é uma imagem de chão de casa. "Ensinei Efraim a dar os primeiros passos, tomei-o em meus braços", diz o profeta Oséias. "Eu os atraía com laços de humanidade, com laços de amor; era para eles como quem leva uma criança ao colo, e rebaixava-me a dar-lhes de comer." Repare no verbo: rebaixava-me. Deus se abaixa. Deus se curva. O Criador do universo dobra os joelhos no tapete da sua vida para te ensinar a caminhar.
E aí vem a parte que aperta o peito, porque a leitura é honesta sobre a gente. "Quanto mais eu os chamava, tanto mais eles se afastavam." Você provavelmente conhece isso por dentro. Sabe do amor, e mesmo assim escorrega. Promete que dessa vez vai ser diferente, e no dia seguinte já está de costas de novo. O que Oséias mostra é que, mesmo quando a gente se afasta, o coração de Deus não endurece. Pelo contrário: "Meu coração comove-se no íntimo e arde de compaixão. Não darei largas à minha ira." Ele não ama porque a gente merece. Ele ama porque Ele é assim. "Eu sou Deus, e não homem."
Guarde esse pano de fundo para entender o Evangelho de Mateus, porque sem ele a frase de Jesus soa como cobrança, e não é. "De graça recebestes, de graça deveis dar." Jesus manda os discípulos anunciarem o Reino, cuidarem dos doentes, levarem paz para as casas. E manda ir leve: sem ouro, sem sacola, sem duas túnicas, sem bastão. Por que essa lista de nãos? Porque o que a gente tem para dar não é nosso mérito, é presente recebido. Ninguém pagou pela paciência da mãe que ensina a andar. Ninguém comprou o colo de Deus. A gente só distribui o que ganhou de graça.
Isso muda o jeito de viver o seu dia. Você não precisa se sentir rico, preparado ou digno para levar algo bom a alguém. Precisa só lembrar de quanto já recebeu de graça e deixar passar adiante. Um bom-dia sincero para o porteiro. Uma escuta paciente para quem está desabando no grupo da família. A saudação que Jesus pede ao entrar numa casa: "desça sobre ela a vossa paz". Coisa pequena, dessas que não pesam na sacola.
Hoje a Igreja no Brasil celebra Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus, a primeira santa brasileira, lá de Nova Trento, em Santa Catarina. Ela começou cuidando de uma doente abandonada num casebre, sem estrutura, sem dinheiro, sem plano grandioso. Deu de graça o que tinha recebido: presença. E de um gesto pequeno nasceu uma congregação inteira. Paulina entendeu a lição de Oséias na prática: quem foi carregado no colo aprende a carregar os outros.
Então, o convite de hoje é concreto e cabe no seu dia de amanhã: escolha uma pessoa, hoje mesmo, que a vida deixou meio de lado. Aquele parente que você anda evitando, o colega que ninguém procura, alguém adoecido no seu contato. Mande uma mensagem, faça uma ligação, ofereça algo sem esperar retorno. Uma frase que diga, do seu jeito, "a paz esteja com você". Não precisa ser grande. Precisa ser de graça, como tudo o que você já recebeu de um Deus que se abaixou para te ensinar a andar.
Que Deus abençoe sua oração.