No trânsito, a gente vira especialista. O carro da frente demora dois segundos no sinal verde e já sabemos tudo sobre o motorista: distraído, sem noção, não devia ter carteira. O da faixa ao lado fechou? Egoísta. E quando somos nós que demoramos, que fechamos, que erramos o retorno? Aí tem explicação. Estava pensando em outra coisa, o dia foi difícil, qualquer um erraria. O julgamento dos outros é instantâneo. O nosso vem com atenuantes.
Estamos na 23ª semana do Tempo Comum, o tempo verde, o tempo do cotidiano, que é justamente onde esse hábito mora. E Jesus, no Evangelho de Lucas, usa uma imagem que chega a ser cômica de tão exagerada: "Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho?"
Cisco é aquele grãozinho que entra no olho e incomoda. Trave é viga de madeira, dessas que sustentam telhado. Jesus está dizendo: você enxerga o detalhe minúsculo no outro e não percebe a estrutura inteira atravessada no seu campo de visão. Não é falta de vista. É seletividade. A gente tem uma lente de altíssima resolução para o defeito alheio e um borrão gentil para o próprio.
Antes dessa imagem, Jesus faz uma pergunta que parece solta: "Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?" Não é solta. É o mesmo assunto. Quem não enxerga a si mesmo não tem como conduzir ninguém. E o conselho bem-intencionado que você dá ao seu irmão pode ser exatamente o buraco em que vocês dois vão cair juntos.
Jesus ainda acrescenta: "todo discípulo bem formado será como o mestre". Ou seja, quem guia acaba entregando o que é, não o que fala. A gente forma as pessoas ao redor pelo nosso olhar, não pelos nossos conselhos.
Paulo entendeu isso e escreveu com uma honestidade rara aos Coríntios. Ele se compara a um atleta: "Eu corro, mas não à toa. Eu luto, mas não como quem dá murros no ar." E termina com um medo bem humano: pregar a boa notícia para os outros e ele mesmo ficar de fora. Paulo, o maior missionário da Igreja primitiva, sabia que dava para falar lindamente de Deus e continuar com a trave no olho. Por isso treinava. Todo dia, como atleta.
Repare que Jesus não manda parar de se importar com o cisco do irmão. Ele diz: "Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão." O cuidado com o outro continua de pé. Só muda a ordem. Primeiro você, depois ele. E quem já tirou uma trave do próprio olho ajuda de um jeito diferente, com mão leve, sem sermão, porque sabe por experiência o quanto dói.
Hoje mesmo você vai ter uma oportunidade. Vai aparecer no grupo da família uma opinião que te irrita. Um colega vai entregar algo pela metade. Alguém vai dirigir mal na sua frente. E a frase já vai estar pronta na sua boca antes de você pensar.
O convite de hoje é simples e um pouco incômodo. Escolha uma pessoa que você anda criticando com frequência, por dentro ou em voz alta. Antes de dormir, pergunte a Deus, com sinceridade: o que dessa crítica é também sobre mim? Não escreva nada, não conte para ninguém, não avise a pessoa. Só fique um minuto em silêncio com a resposta. É assim que a trave começa a sair.
Que Deus abençoe sua oração.