Sabe aquele momento em que alguém importante vai embora? Um pai que voltou para a cidade dele, um amigo que mudou de país, um chefe querido que se aposentou. Por um tempo, sobra uma sensação estranha — um vazio que ninguém preenche direito. A gente se pega pensando: "como seria mais fácil se essa pessoa ainda estivesse aqui."
Estamos na sexta semana do Tempo Pascal — esse longo período em que a Igreja nos prepara para Pentecostes. E é justamente sobre uma despedida que Jesus fala no Evangelho de hoje.
"É bom para vós que eu parta", ele diz aos discípulos. "Se eu não for, não virá até vós o Defensor."
Imagina ouvir isso. Você acompanhou esse homem por três anos. Largou tudo por ele. Viu milagres, ouviu parábolas, dividiu o pão. E agora ele diz que precisa ir embora — e mais: que essa partida é boa pra você. "A tristeza encheu os vossos corações", diz o texto. Faz todo sentido.
Mas Jesus está abrindo uma chave nova. Existe uma presença diferente da presença física. Existe um modo de Deus estar com a gente que só acontece quando soltamos a forma que nos era familiar. O Defensor, o Espírito Santo, é essa presença que não cabe num corpo só, que sopra onde quer e em quantos quiser.
A primeira leitura mostra isso na prática. Paulo e Silas estão presos em Filipos. Foram açoitados, jogados no fundo da prisão, com os pés no tronco. À meia-noite — hora da escuridão completa, hora do desespero — eles fazem o quê? Rezam e cantam hinos a Deus. "E os outros prisioneiros os escutavam."
Não é um truque para fugir. Não é encenação para impressionar ninguém. É o Espírito agindo numa situação onde Jesus já não está fisicamente. Onde uns veriam desistência, outros veriam revolta — eles cantam. E o terremoto que solta as correntes solta também o carcereiro. Ele que era guarda vira filho. A família inteira é batizada de madrugada.
Tudo isso porque dois homens, no escuro, não pararam de confiar.
A gente vive numa cultura que confunde presença com aparição. Se a pessoa não te respondeu hoje, sumiu. Se Deus não fez o sinal que você pediu, não tá ouvindo. Se a oração não vira logo um resultado, é porque não funciona. Mas o Espírito não trabalha assim. Ele se instala num lugar mais fundo — no jeito que você fala com seu filho irritado, na decisão silenciosa de não responder o ataque do colega, na coragem de cantar quando o mundo manda calar.
O Defensor não te poupa da prisão. Ele te dá voz dentro dela.
Hoje, em algum momento do dia, você vai esbarrar com uma situação que pede um cantar pequeno. Pode ser não falar mal de alguém quando o assunto vier. Pode ser dar bom-dia para quem ninguém cumprimenta. Pode ser fechar o celular e olhar nos olhos da pessoa que está na sua frente. Pode ser respirar antes de mandar aquele áudio.
Esses são os hinos de meia-noite do nosso tempo. Ninguém escuta — só Deus. Mas é por aí que o Espírito desce, e às vezes o carcereiro do lado, sem saber por quê, pergunta: "o que devo fazer para ser salvo?"
Jesus disse que a partida dele era boa pra gente. A gente entende isso quando descobre, na vida real, que o Defensor é mais íntimo do que qualquer presença que a gente queira agarrar.
Que Deus abençoe sua oração.