Quando alguém compra um apartamento, tira foto da sala, da vista, da bancada da cozinha. Ninguém fotografa a fundação. E, no entanto, foi ali que o prédio passou meses sendo construído: máquinas cavando, concreto descendo, um buraco enorme que não impressionava ninguém. A parte mais importante do lugar onde você mora é exatamente a que você nunca viu.
Estamos na 23ª semana do Tempo Comum, esse trecho longo e verde do ano litúrgico em que a Igreja não celebra nenhum grande mistério, nenhuma festa espetacular. Só o dia normal. E é justamente aí que Jesus fala de alicerce.
No Evangelho de Lucas, ele descreve dois construtores. Um "cavou fundo e colocou o alicerce sobre a rocha". O outro "construiu uma casa no chão, sem alicerce". Vistas de fora, as duas casas eram iguais. Mesmo telhado, mesma porta, talvez a mesma tinta. A diferença só apareceu quando a torrente chegou.
Repare que Jesus não diz que a enchente vem para uns e não vem para outros. A água bate nas duas casas. A vida acontece igual para quem reza e para quem não reza. A diferença nunca esteve no clima. Esteve no que foi feito antes, embaixo, quando ninguém estava olhando.
E antes disso ele já tinha dado a chave: "sua boca fala do que o coração está cheio". Não existe árvore boa que dê frutos ruins. O que aparece na sua vida em dia de tempestade é o que você guardou nela em dia de sol.
Aí vem a frase que incomoda de verdade: "Por que me chamais: 'Senhor! Senhor!', mas não fazeis o que eu digo?" Jesus não está falando com pessoas de fora. Está falando com quem já o chama de Senhor. Com quem vai à missa, com quem sabe as orações, com quem tem a Bíblia no criado-mudo e o app de liturgia no celular. É possível ter todo o vocabulário da fé e nenhum alicerce.
Cavar fundo dá trabalho e não rende foto. É rezar dez minutos numa terça-feira em que nada acontece. É pedir desculpa em casa quando ninguém ficou sabendo da briga. É devolver o troco a mais, apagar a mensagem irônica antes de enviar, cumprir aquilo que você prometeu para si mesmo às onze da noite e ninguém cobrou. Nada disso muda a aparência da casa. Tudo isso muda o que acontece quando a torrente vier.
Paulo, na carta aos coríntios, aponta para o mesmo lugar por outro caminho: "O pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo." Ele lembra que a gente é formado pelo que consome. Você fica parecido com aquilo de que se alimenta, com as mesas em que senta, com as telas que rola antes de dormir. A comunhão não é um gesto isolado de domingo. É uma escolha diária sobre onde você vai buscar o que sustenta.
E aqui mora a boa notícia: alicerce não se herda pronto, se constrói. Se você olhou para dentro agora e sentiu que sua casa está mais bonita por fora do que firme por dentro, isso não é uma sentença. É um convite. A obra ainda está aberta. Deus não pede um prédio impecável, pede permissão para descer até a rocha.
Hoje, escolha uma coisa que você já ouviu de Jesus e ainda não colocou em prática, e faça só ela. Uma. Pode ser mandar aquela mensagem de reconciliação que você adia há semanas. Pode ser dedicar quinze minutos a alguém de casa sem o celular na mão. Pode ser não comentar sobre aquela pessoa quando o assunto surgir na roda.
Escolha antes do fim do dia. Não conte para ninguém. Ninguém precisa fotografar a fundação para ela sustentar a casa.
Que Deus abençoe sua oração.