Tem uma coisa curiosa na nossa memória: ela é péssima para senha de banco e excelente para mágoa. Você esquece onde deixou a chave, mas lembra com precisão de cirurgião a frase que seu cunhado disse no almoço de três anos atrás. Lembra do tom, da pausa, de quem estava na mesa. A gente carrega essas contas no bolso como quem guarda um comprovante: ainda não recebi.
Estamos no 24º Domingo do Tempo Comum, e a liturgia de hoje mexe justo nesse bolso.
Pedro chega com uma pergunta que parece generosa: "Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?" Sete já era muito para o padrão da época. Ele achava que estava sendo largo. Jesus responde: "Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete." Não é uma nova cota. É o fim da planilha.
E aí vem a história. Um homem devia ao patrão uma fortuna impossível, o tipo de dívida que nenhuma vida de trabalho pagaria. Ele suplica, e o patrão perdoa tudo. Tudo. Na saída, ainda com o alívio quente no peito, esse mesmo homem encontra um colega que lhe devia cem moedas. Um troco. E o agarra pelo pescoço.
A cena é quase cômica de tão absurda, se não fosse tão parecida com a gente.
Porque é isso que costuma acontecer: sair da confissão, da missa, de uma oração em que você se sentiu profundamente acolhido, e no estacionamento buzinar furioso para quem demorou dois segundos no farol. Receber misericórdia no atacado e distribuir no varejo, com desconto e prazo.
O Eclesiástico, na primeira leitura, aperta o ponto com uma pergunta que não deixa saída: "Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura?" Não é ameaça. É constatação de mecânica: mão fechada não segura e recebe ao mesmo tempo. Se você está apertando o comprovante de dívida do outro, sua mão não está livre para receber o que Deus quer colocar nela.
E o Salmo mostra qual é a medida de Deus: "quanto dista o nascente do poente, tanto afasta para longe nossos crimes". Não é um perdão que arquiva com ressalva. É distância de horizonte.
Perdoar não é dizer que não doeu. Não é fingir que estava tudo bem, nem voltar a colocar a mão no fogo por quem te queimou. Há situações em que perdoar e manter distância caminham juntos. Perdoar é soltar o direito de cobrar. É parar de viver como fiscal de uma dívida que te consome mais do que ao devedor.
Paulo, na segunda leitura, dá o chão de tudo isso: "Ninguém dentre nós vive para si mesmo." A gente não é uma ilha que faz suas próprias contas. Somos do Senhor, e o outro também. A pessoa de quem você cobra pertence a Alguém que já a perdoou.
Talvez você esteja pensando em um nome agora. Provavelmente veio rápido; esses nomes vêm rápido. Não precisa resolver tudo hoje. Perdão raramente é um evento. Quase sempre é um caminho, e às vezes a decisão se refaz muitas vezes, setenta vezes sete.
Hoje, faça uma coisa pequena e concreta: pegue esse nome e reze por ele. Não pela conversão dele, não para que ele reconheça o erro. Reze pedindo algo bom, específico e real para a vida dessa pessoa: que o trabalho dela dê certo, que ela tenha saúde, que ela durma em paz. Trinta segundos bastam. Você vai sentir a dificuldade nas primeiras palavras, e é justamente aí que a mão começa a abrir.
E se conseguir, rasgue o comprovante.
Que Deus abençoe sua oração.