Festa de São Matias, Apóstolo — Jo 15,9-17
Pensa num momento em que você não foi escolhido. A vaga de emprego que ficou com outro. O time do recreio que chamou todo mundo menos você. Aquela promoção que passou na sua frente depois de anos esperando. Tem uma dor bem específica nisso — a sensação de que faltou algo em você, de que você não era bom o suficiente.
Matias conheceu o avesso dessa história. Ele estava lá, quieto, entre os irmãos reunidos em Jerusalém. Tinha acompanhado Jesus desde o batismo de João, tinha visto tudo, vivido tudo. E num instante, por um sorteio, o nome dele foi chamado. Não por ser o mais talentoso. Não por ter mais currículo que José Barsabás. A escolha veio de outro lugar.
É aí que o Evangelho de hoje entra com força. Jesus não diz aos discípulos: "parabéns, vocês se destacaram". Ele diz o contrário: "não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi". E mais: ele os escolheu com um propósito — para irem, para produzirem fruto, para que esse fruto permaneça. Não é escolha por mérito. É escolha por missão.
Isso muda tudo em como a gente entende o próprio valor. A maioria de nós vive tentando ser escolhível — postando o conteúdo certo, dizendo a coisa certa na reunião, aparecendo nos lugares certos. Como se a nossa aprovação dependesse de sempre sermos os mais visíveis, os mais prontos, os mais competentes. Mas Jesus escolheu Matias num sorteio. Escolheu pescadores sem escolaridade formal. Escolheu você — não porque você era o candidato óbvio, mas porque ele conhece os corações, como Pedro disse na oração daquele dia.
O amor que Jesus descreve no Evangelho não é recompensa por desempenho. "Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor." É um convite para ficar dentro de algo que já está dado — não conquistar, não merecer, só permanecer.
Só que permanecer no amor de Jesus tem uma consequência prática, e ele não deixa isso implícito: "amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei". No contexto da Festa de São Matias, isso ganha peso. A comunidade dos apóstolos tinha acabado de perder alguém que traiu. Tinha uma ferida. E a resposta não foi fechar o círculo — foi abrir espaço para outro, acolher Matias, seguir em frente juntos.
Quantas vezes a gente prefere o contrário? Depois de uma traição, de uma decepção com alguém na família ou no trabalho, a reação natural é reduzir o círculo, se proteger, não confiar mais. A comunidade dos apóstolos mostrou outro caminho: a escolha continua. A missão não para. O amor não se fecha.
A alegria que Jesus menciona — "para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena" — não é a alegria de quem nunca sofreu. É a alegria de quem, mesmo depois de tudo, decidiu permanecer.
Hoje, uma coisa simples: pensa em alguém que você excluiu do seu círculo por mágoa, por cansaço, por decepção. Não precisa resolver tudo agora. Mas pode dar um passo — uma mensagem, um gesto pequeno, uma abertura. Você foi escolhido para produzir fruto. E fruto que permanece não nasce sozinho — nasce em relação.
Que Deus abençoe sua oração.