Existe um momento em toda relação longa que ninguém posta. É aquela madrugada na cozinha, luz acesa, duas canecas de café já frio e a conversa difícil que os dois adiaram a semana inteira. Não rende foto. Não vira legenda. E, mesmo assim, é ali que quase tudo se decide.
Estamos no Tempo Comum, e hoje a Igreja celebra a memória de São Maximiliano Maria Kolbe. Foi o frade polonês que, num campo de concentração, deu um passo à frente e se ofereceu para morrer no lugar de um pai de família que chorava pelos filhos. A cor de hoje é o vermelho, cor de quem foi até o fim. Kolbe não fez aquilo por heroísmo de filme. Fez porque tinha entendido de que material é feito o amor de Deus.
E é sobre esse material que as leituras conversam.
Ezequiel usa uma imagem que dói: uma recém-nascida largada em campo aberto, ninguém para cortar o cordão, ninguém para lavar, ninguém com dó. Aí alguém passa. "Então, eu passei junto de ti e vi que te debatias no próprio sangue. E enquanto estavas em teu sangue, eu te disse: Vive!" Deus não encontrou um povo bonito e resolveu adotar. Ele encontrou um povo descartado e disse a palavra que ninguém tinha dito. Depois vestiu, alimentou, enfeitou, cuidou.
A história continua e não termina bem. O povo se acostuma com a beleza, esquece de quem veio o cuidado e vai atrás de outros afetos. Qualquer pessoa que já foi trocada sabe o tamanho disso. O que impressiona é a frase seguinte de Deus, quando tudo já tinha desandado: "Eu, porém, me lembrarei de minha aliança contigo." Ele não diz "eu perdoo se você merecer". Diz que vai lembrar. A memória de Deus é mais teimosa que o nosso desamor.
No Evangelho, uns fariseus chegam com uma pergunta de advogado: é permitido despedir a esposa por qualquer motivo? Eles querem saber onde fica a porta de saída e quanto custa a passagem. Jesus não entra no jogo. Ele volta ao começo, ao projeto original, e diz: "o que Deus uniu, o homem não separe."
É fácil ouvir isso como uma regra apertada. Mas repare de onde Jesus está falando. Ele está falando do mesmo lugar de Ezequiel: o lugar de quem não usa as pessoas enquanto são úteis e devolve quando cansam. Jesus não está trancando ninguém. Está dizendo que existe um jeito de amar que não trabalha com cláusula de rescisão.
E a gente vive num mundo que ama por assinatura mensal. Cancela o plano, some do grupo, arquiva a conversa, deixa de seguir. Não é só no casamento. É a amizade de vinte anos que morreu porque ninguém quis dar o primeiro telefonema. É o irmão com quem você não fala desde a briga do inventário. É o pai que virou uma mensagem de feliz aniversário por ano. A gente não rompe com estardalhaço. A gente rompe por desistência silenciosa.
Se a sua história já se partiu em algum lugar, escute com calma: a aliança de Deus com você não depende de as suas alianças humanas terem dado certo. Ele continua sendo aquele que passa, olha e diz "vive". Inclusive agora. Inclusive aí.
Kolbe entrou naquele bunker sem nenhuma garantia de que alguém saberia. Fidelidade quase nunca é grandiosa. Quase sempre é isso: ficar mais um dia, tentar mais uma vez, voltar depois da porta batida.
Hoje, pense em um vínculo seu que está gasto por abandono, não por briga. Alguém de quem você simplesmente foi se afastando. Mande uma mensagem hoje, antes de dormir. Não precisa resolver nada, nem explicar o sumiço. Pergunte como a pessoa está e espere a resposta de verdade. É pouco, e é exatamente assim que uma aliança recomeça: alguém que passa por perto e resolve não seguir em frente.
Que Deus abençoe sua oração.