Tem um tipo de dor que a gente prefere não encarar. O resultado do exame que está na gaveta há três semanas, fechado. A conversa com o irmão que você adia desde o Natal. A planilha do mês que você não abre porque já sabe que não fecha. A gente desvia o olhar achando que assim a coisa some. Ela não some. Ela continua mordendo por baixo, no escuro, enquanto você finge que está tudo bem e responde "tranquilo" no grupo da família.
O povo no deserto conhecia esse aperto. Estavam cansados, com fome de comida de verdade, reclamando do caminho, e vieram as serpentes. Muita gente morreu. E aí acontece a coisa mais estranha da primeira leitura de hoje: Deus não manda o povo fugir das serpentes, nem esconder as crianças, nem correr. Ele manda Moisés fazer uma serpente de bronze e levantá-la numa haste, e diz que "aquele que for mordido e olhar para ela, viverá".
Repare no que Deus pede. Ele pede que o povo olhe exatamente para a imagem daquilo que estava matando. Não para uma paisagem bonita. Não para o céu. Para a mordida, erguida diante dos olhos de todos.
Jesus retoma essa cena falando com Nicodemos à noite, aquele homem que só conseguia procurá-lo no escuro, com medo do que os outros iam dizer: "Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna."
Hoje a Igreja celebra a Festa da Exaltação da Santa Cruz. E é bom lembrar o que essa palavra "exaltação" carrega. A cruz era o instrumento de tortura mais humilhante do império romano, reservado a escravos e rebeldes. Ninguém pendurava uma cruz na parede da sala, ninguém usava uma no pescoço. Era o equivalente a fazer joia com a arma do crime. E é justamente esse objeto que a fé cristã levanta e coloca no alto, no meio da igreja, no meio da vida.
Porque a cruz não é a celebração da dor. É o anúncio de que a dor não teve a última palavra. Deus não apagou a marca do sofrimento fingindo que ele nunca existiu. Ele atravessou o sofrimento por dentro e saiu do outro lado. O que estava lá para matar virou o lugar exato de onde a vida jorra.
E o Evangelho de hoje continua com uma frase que talvez seja a mais desarmante da Escritura: "Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele." Muita gente carrega a impressão de que olhar de frente para a própria ferida é o mesmo que sentar no banco dos réus. Não é. Quando você levanta os olhos para a cruz, não encontra um juiz esperando com a lista dos seus erros na mão. Encontra alguém que já esteve no seu lugar, que conhece o gosto do abandono, e que está ali por amor, não por sentença.
É por isso que olhar não é masoquismo. É o começo da cura. Enquanto a mordida fica no escuro, ela manda em você. Levantada à luz, olhada de frente, ela perde o poder de decidir a sua vida.
Hoje, escolha uma coisa que você vem desviando o olhar. Uma só. Abra o envelope. Mande a mensagem que está engasgada. Diga em voz alta, sozinho no carro, o nome daquilo que está te mordendo. E antes de fazer isso, pare por um instante diante de qualquer cruz que você tenha por perto, no quarto, no pescoço, na parede da cozinha. Faça o sinal da cruz devagar, sem pressa, prestando atenção no gesto. Depois olhe para o que precisa ser olhado. Você não vai olhar sozinho.
Que Deus abençoe sua oração.