Você já ficou parado diante de uma porta aberta sem coragem de atravessar? Pode ser aquela vaga de emprego que exige mais do que você acha que sabe. A conversa difícil que precisa acontecer. O pedido de desculpas que trava na garganta. A porta está lá, destrancada, mas a gente fica do lado de dentro olhando para ela como se fosse armadilha.
Estamos na 2a Semana da Páscoa, tempo em que a Igreja celebra a vitória da vida sobre a morte e nos convida a viver como gente ressuscitada. E as leituras de hoje falam exatamente disso: portas que se abrem e a escolha de atravessá-las.
Na primeira leitura, os apóstolos são presos. De novo. O sumo sacerdote e os saduceus, "cheios de raiva", mandam trancafiá-los na cadeia pública. A cena parece previsível: os poderosos vencem, os seguidores de Jesus perdem. Mas durante a noite, o anjo do Senhor abre as portas da prisão. E não diz "fujam". Diz algo muito mais ousado: "Ide falar ao povo, no Templo, sobre tudo o que se refere a este modo de viver."
Repare: o anjo não os manda para um esconderijo seguro. Manda de volta ao lugar onde seriam mais vistos — o Templo. E eles vão. Ao amanhecer, estão lá ensinando. Quando os guardas chegam na prisão, encontram tudo trancado, os soldados a postos e ninguém lá dentro. A cena tem quase humor: a cadeia intacta e vazia. As portas que os homens trancam, Deus abre com uma facilidade que envergonha.
No Evangelho, João retoma o diálogo com Nicodemos, aquele fariseu que só conseguiu ir até Jesus de noite. E Jesus diz uma frase que talvez seja a mais citada de toda a Bíblia: "Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna." Mas logo em seguida vem a parte que a gente cita menos: "A luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más."
É aí que as duas leituras se cruzam. A porta da prisão se abre, mas o mais difícil não é sair — é caminhar para a luz sabendo que ela vai iluminar tudo, inclusive o que a gente prefere esconder. Nicodemos vai de noite porque a noite protege. A escuridão é confortável: ninguém vê suas contradições, suas dúvidas, suas meias-verdades. A luz, por outro lado, mostra tudo. E isso assusta.
Pense na sua vida. Quantas portas abertas você está evitando? Não por falta de oportunidade, mas por medo do que vem junto. A reconciliação que exige vulnerabilidade. A mudança que exige largar o controle. A verdade que exige coragem. O Salmo de hoje canta: "Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido." A palavra "infeliz" não é bonita, mas é honesta. Às vezes a gente precisa admitir que está preso — mesmo quando a porta já está aberta — para ter coragem de gritar.
Deus não enviou seu Filho para condenar. Ele enviou para salvar. A luz não vem para envergonhar — vem para libertar. Mas a libertação exige que a gente saia da cela conhecida e caminhe em direção ao desconhecido iluminado.
Hoje, olhe para a porta que está aberta na sua vida. Aquela que você finge que não vê. Não precisa ser um gesto grandioso — às vezes atravessar é só responder àquela mensagem, começar aquela conversa, dizer sim ao que Deus está pedindo há tempo. O anjo já abriu a porta. O passo é seu.
Que Deus abençoe sua oração.