Você já viveu isso num grupo de família no WhatsApp? Alguém propõe churrasco: "muito longe". Alguém sugere pizza: "de novo?". Alguém marca no sábado: "sábado é péssimo pra mim". Muda para domingo: "domingo é pior ainda". No fim, ninguém se encontra e a conversa morre no clássico "depois a gente combina". O problema quase nunca é a proposta. É que algumas pessoas já chegaram decididas a não gostar de nada.
Jesus descreveu essa cena há dois mil anos, e ela continua atual demais. Ele fala de crianças sentadas na praça, gritando para os colegas que não entram na brincadeira: "Tocamos flauta para vós e não dançastes; fizemos lamentações e não chorastes!" Música alegre, ninguém dança. Música triste, ninguém chora. Nada serve.
E aí ele explica o que quer dizer. Veio João Batista, que não comia pão nem bebia vinho, austero até o osso, e disseram que estava endemoninhado. Veio Jesus, que aceitava convite para jantar, sentava à mesa com gente malvista, e disseram que era comilão e beberrão. Repare: os dois foram rejeitados por motivos opostos. Sinal claro de que o problema nunca esteve no mensageiro. Estava no coração que já tinha decidido ficar de fora.
É confortável ficar de fora. Você comenta, avalia, aponta o que está errado, e nunca precisa se arriscar. Dá para atravessar a vida inteira assim: criticando a homilia, o padre, o vizinho, o governo, o jeito como a irmã cria os filhos. Você fica sempre certo, porque quem não entra na quadra nunca erra o passe.
A primeira leitura de hoje é o antídoto exato disso. Paulo escreve aos coríntios, que também viviam se comparando e se julgando, e diz uma frase que devia doer em quem só sabe opinar: "Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse caridade, eu seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine." Barulho. Você pode ter argumento, informação, razão e ainda assim ser só barulho.
Depois ele descreve o que é amar de verdade, e nenhuma palavra é abstrata: paciente, benigna, não é invejosa, não guarda rancor, não se alegra com a iniquidade. Tudo isso são verbos de quem entra na quadra. Amar dá trabalho, expõe, gasta tempo. Julgar é de graça.
Hoje a Igreja celebra a memória de São Cornélio e São Cipriano, mártires, e por isso a cor do altar é vermelha. A história dos dois cabe bem aqui. No século terceiro, depois de uma perseguição violenta, a comunidade cristã rachou discutindo o que fazer com quem tinha negado a fé por medo e agora queria voltar. Havia um grupo inteiro dizendo que a porta devia ficar fechada para sempre. Cornélio, bispo de Roma, e Cipriano, bispo de Cartago, defenderam o caminho mais difícil: perdoar e reacolher. Sofreram acusações dos dois lados. Os dois acabaram morrendo pela fé.
Eles não morreram por terem vencido uma discussão. Morreram porque escolheram amar concretamente uma comunidade ferida, em vez de ficar do lado de fora dizendo como ela deveria ser.
A sabedoria, diz Jesus no fim do Evangelho, "foi justificada por todos os seus filhos". Ou seja: o amor se prova vivendo, não argumentando.
Hoje, faça uma troca simples. Na primeira vez em que você sentir aquela vontade de comentar o defeito de alguém, em voz alta ou no grupo, segure a frase e substitua por um gesto concreto na direção dessa mesma pessoa. Mande a mensagem que você vem adiando. Diga sim ao convite que você já ia recusar por preguiça. Elogie na frente dos outros quem você costuma criticar pelas costas.
Uma coisa só. Hoje. Sai da arquibancada e entra na dança.
Que Deus abençoe sua oração.