Tem um tipo de pessoa que a gente conhece bem. Ela chega no almoço de domingo, ouve a história do primo que se perdeu, do tio que recomeçou depois da separação, da vizinha que voltou a frequentar a igreja, e solta a frase: "graças a Deus, comigo nunca aconteceu nada disso". Não é maldade. É uma conta que ela fez de cabeça e fechou no azul. Nada devendo. Nada a receber.
Estamos na 24ª semana do Tempo Comum, esse trecho longo e verde do ano em que a Igreja nos ensina a enxergar Deus dentro da rotina. E hoje a rotina é um jantar. Um fariseu chamado Simão convida Jesus para comer na casa dele. Tudo correto, tudo nos conformes. Até que entra uma mulher que ninguém convidou, com um frasco de perfume, e faz uma cena constrangedora: chora aos pés de Jesus, seca as lágrimas com os próprios cabelos, beija, unge.
Simão não fala nada. Só pensa. E o que ele pensa é o que muita gente pensa hoje, no silêncio do feed, sobre a vida alheia: "se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele".
Jesus responde com uma continha simples. Dois devedores. Um deve quinhentas moedas, outro deve cinquenta. Nenhum dos dois tem como pagar. O credor perdoa os dois. E aí vem a pergunta: "Qual deles o amará mais?"
Repare no detalhe que passa batido. Os dois deviam. Os dois estavam quebrados. A diferença não estava em ter ou não ter dívida, mas em saber o tamanho dela.
A mulher sabia. Por isso derramou perfume. Simão achava que não devia nada. Por isso não ofereceu nem a água para lavar os pés, o gesto mais básico de hospitalidade daquele tempo, o equivalente a receber alguém em casa e nem oferecer um copo d'água. Ele foi correto e frio. Ela foi inconveniente e quente. E Jesus diz: "os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor".
Não é que o amor dela comprou o perdão. É que o perdão recebido virou amor. Quem se sabe carregado começa a carregar os outros.
Paulo entendeu isso na pele. Ele escreve aos coríntios sem maquiar o próprio passado: "eu sou o menor dos apóstolos, nem mereço o nome de apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus". E logo em seguida vem a frase que muda tudo: "É pela graça de Deus que eu sou o que sou". Paulo não passou a vida se punindo pelo que fez. Também não fingiu que não fez. Ele olhou para a própria dívida, viu que ela tinha sido paga, e transformou aquilo em energia para uma vida inteira de trabalho.
Talvez esse seja o convite de hoje: parar de fazer a conta com a calculadora de Simão.
Porque a gente aprende cedo a se defender. A gente conta a própria história sempre no papel de quem foi justo, de quem só reagiu, de quem estava certo. E quanto mais a gente se convence de que não deve nada, mais duro fica com quem deve. É por isso que julgar é tão confortável: julgar é a forma mais educada de dizer que a nossa conta está zerada.
Só que ninguém chega até aqui sozinho. Você foi esperado por alguém. Foi perdoado por alguém, provavelmente sem nem ter pedido. Alguém segurou a sua barra num ano em que você não estava fácil de conviver.
Hoje, faça um exercício pequeno e nada heroico: sente cinco minutos e lembre de uma coisa concreta que te foi perdoada. Uma frase dura que você disse, um sumiço, uma promessa que não cumpriu. Não fique remoendo. Só reconheça o tamanho. E então mande uma mensagem para uma pessoa que hoje você julga, perguntando sinceramente como ela está.
Quem sabe o tamanho da própria dívida perdoada não sobra tempo para conferir a dos outros.
Que Deus abençoe sua oração.