Toda festa de aniversário tem alguém que chega antes e sai depois. A pessoa que comprou o gelo, que lembrou dos guardanapos, que ficou lavando louça enquanto o resto cantava parabéns. No dia seguinte, ninguém marca ela nas fotos. E ainda assim, sem ela, não teria festa.
Estamos na 24ª semana do Tempo Comum, esse longo trecho verde do calendário em que a Igreja nos ensina a enxergar Deus dentro da rotina, e não só nas grandes datas. E o Evangelho de hoje é curtíssimo, três versículos que a gente poderia ler no automático. Lucas descreve Jesus percorrendo cidades e povoados, anunciando o Reino, com os doze ao lado. Até aí, o esperado. Mas então ele acrescenta uma informação que nenhum outro evangelista dá com tanto detalhe.
Havia também mulheres. "Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana, e várias outras mulheres que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam."
Repare no que Lucas fez. Ele podia ter escrito "e algumas mulheres acompanhavam o grupo". Seria suficiente. Mas ele escreveu os nomes. Maria. Joana. Susana. Gente com história, com endereço, com dinheiro no bolso que decidiram gastar numa causa que não daria retorno nenhum aos olhos do mundo.
E olha quem são. Maria Madalena vinha de um sofrimento que ninguém sabia nomear direito. Joana era casada com um funcionário graduado da corte de Herodes, exatamente o poder que mais tarde ia zombar de Jesus. Ela financiava, com o dinheiro daquela casa, o movimento que desmontava a lógica daquele mundo. Nenhuma delas prega um sermão no texto. Nenhuma faz milagre. Elas sustentam. Pagam a comida, a estrada, o dia a dia da missão.
A gente tem uma tendência a achar que fé de verdade é a que aparece. O microfone, o ministério, o post bonito, a frase que viraliza. Mas boa parte do Reino de Deus é feita de trabalho invisível. É a mãe que acorda às cinco pra deixar o almoço pronto. É o senhor que abre a igreja no domingo e ninguém sabe o nome. É a colega que paga o café de quem está quebrado no fim do mês e não comenta com ninguém. É você, quando faz algo de bom e ninguém repara.
Lucas repara. E ele repara porque Deus repara.
É aí que a primeira leitura entra e amarra tudo. Paulo está escrevendo a uma comunidade em Corinto onde alguns diziam que não existe ressurreição. Ele não faz rodeios: se Cristo não ressuscitou, "é para esta vida que pusemos a nossa esperança" e então somos os mais dignos de compaixão. Ou seja: se tudo termina aqui, quem gastou a vida em coisas que ninguém viu perdeu feio. Mas Paulo não para aí. "Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram."
Essa frase muda o peso de tudo. Se existe ressurreição, nada de bom se perde. O gesto que ninguém viu não evaporou. A generosidade que não rendeu likes não foi desperdiçada. Deus guarda. Ele é o único que anota todos os nomes.
Maria, Joana e Susana provavelmente morreram sem saber que seus nomes atravessariam dois mil anos e seriam lidos em voz alta numa igreja no Brasil, hoje, nesta sexta-feira comum. Elas só fizeram o que dava pra fazer com o que tinham.
Hoje, faça uma coisa boa que ninguém vai ficar sabendo. Escolha algo pequeno e concreto: pague o lanche de alguém sem avisar, resolva uma pendência chata que sobraria para outra pessoa, mande um Pix para alguém que está apertado e peça para não comentar. Não conte, não poste, não espere agradecimento.
E, antes de dormir, lembre de uma pessoa que sustenta sua vida nos bastidores. Diga o nome dela em voz alta numa oração curta. Ela merece ser nomeada, do mesmo jeito que Lucas nomeou aquelas três.
Que Deus abençoe sua oração.