Tem uma pergunta meio assustadora que aparece quando a gente para por dois minutos: pelo que eu estou vivendo, mesmo? Não a versão bonita para o currículo nem a frase de efeito do Instagram. A versão real. Aquela que aparece quando você tira o telefone da mão por meia hora e fica sozinho com você.
Estamos na 7ª Semana da Páscoa. A liturgia desses dias nos leva para dentro das duas grandes despedidas. A de Paulo, em Mileto, falando pela última vez aos anciãos de Éfeso. E a de Jesus, em João 17, levantando os olhos ao Pai e fazendo aquela oração que parece um testamento. Duas pessoas no fim de um capítulo. Duas pessoas dizendo, de jeitos diferentes, a mesma coisa: valeu a pena.
Olha o que Paulo diz: "De modo nenhum, considero a minha vida preciosa para mim mesmo, contanto que eu leve a bom termo a minha carreira e realize o serviço que recebi do Senhor Jesus." Ele sabe que vai ser preso. Ele sabe que vai sofrer. Ele sabe que não verá mais os rostos daquela gente que ama. E mesmo assim caminha para Jerusalém com a paz de quem entendeu para que está aqui.
Isso é raro. Hoje a gente vive ao contrário. Considera a vida preciosa demais para si mesmo. Tão preciosa que protege ela de qualquer coisa que possa custar. Não fala a verdade no trabalho porque pode dar problema. Não puxa a conversa difícil em casa porque pode estragar o jantar. Não compromete uma noite por outro porque a agenda está cheia. Vai economizando a vida — e descobre, lá na frente, que economizou demais para gastar com alguma coisa que importe.
Jesus, no Evangelho, olha para o céu e diz: "Pai, chegou a hora." Ele não corre da hora. Ele a recebe. Porque a vida dele teve um para quê desde o começo: "Eu te glorifiquei na terra e levei a termo a obra que me deste para fazer." Olha o verbo: levei a termo. Cheguei até o fim. Não desisti no meio. Não terceirizei. Não fiquei na metade.
Essa é a vida bem-vivida, segundo o Evangelho: uma vida que chega ao fim sabendo que cumpriu o que recebeu. Não que fez tudo o que quis. Não que ficou rica, famosa ou descansada. Mas que respondeu ao chamado que ouviu — esse chamado pequeno e específico que ninguém vê, mas que cada um conhece por dentro.
O salmo de hoje diz: "Bendito seja Deus, o Deus da nossa salvação, que carrega os nossos fardos." Repare nesse detalhe. Deus carrega o fardo de quem aceitou a missão. Não é você sozinho com o peso. Quando a vida tem um para quê de Deus, ele entra junto carregando. Paulo, prisioneiro do Espírito, vai para Jerusalém apoiado nessa promessa. Não é coragem natural. É coragem de quem sabe quem está junto.
Pode parecer distante isso, no meio da segunda-feira de boleto, reunião e fila do supermercado. Mas a pergunta vale para hoje mesmo: tem alguma coisa nessa sua semana que você sabe que Deus está te pedindo? Pode ser ligar para alguém que está sofrendo. Pode ser perdoar uma pessoa que você anda fugindo. Pode ser dizer uma verdade que você está engolindo. Pode ser começar aquilo que você sente que devia, mas adia.
Faça uma coisa hoje: identifique uma coisa só. Uma chamada de Deus que está pendente. E dê o primeiro passo ainda hoje, antes de dormir.
Porque chegar ao fim da vida e poder dizer "levei a termo a obra que me foi dada" não é privilégio de santo. É possibilidade de qualquer um que pare de economizar a vida para si mesmo e a invista em quem confiou ela.
Que Deus abençoe sua oração.