Você já olhou para a sua vida e teve vontade de arrancar tudo que está errado de uma vez só? Aquele hábito que insiste em voltar, aquela mágoa que não passa, aquela pessoa difícil no trabalho, aquela notícia que faz a gente perder a fé na humanidade. A tentação é a mesma dos empregados da parábola: "Senhor, deixa que a gente vai lá e arranca o joio agora."
E é curioso o que o dono da lavoura responde. Não é "vão em frente". É "não". "Deixai crescer um e outro até a colheita." Jesus conta isso no Evangelho deste domingo, e a primeira vista parece falta de zelo. Mas é o contrário. É paciência de quem conhece o campo melhor do que a gente.
Porque o joio e o trigo, quando ainda são pequenos, se parecem demais. Quem já lidou com terra sabe: no começo é quase impossível distinguir um do outro. Arrancar cedo demais é correr o risco de puxar junto o que era bom. E aqui está o ponto que muda tudo: esse campo não é só o mundo lá fora, com as pessoas que a gente gostaria de julgar. Esse campo é o seu coração também. Dentro da gente, o trigo e o joio crescem no mesmo canteiro. O que hoje parece fracasso, amanhã pode virar a raiz da sua maior conversão. O que hoje parece perdido em você, Deus ainda não desistiu de transformar.
A primeira leitura ilumina isso com uma frase linda do Livro da Sabedoria: "julgas com clemência e nos governas com grande consideração". E completa dizendo que Deus deu ao seu povo "a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores". Repare que a paciência de Deus não é distração, nem indiferença diante do mal. É força que se controla. É poder que escolhe a misericórdia. Deus pode tudo, e justamente por isso pode esperar por você.
A gente vive num tempo apressado, que quer resultado rápido, gente etiquetada em bom e ruim, cancelamento imediato. O Reino de Deus caminha diferente. Jesus fala da semente de mostarda, a menor de todas, que vira árvore onde os pássaros fazem ninho. Fala do fermento que uma mulher mistura na farinha até tudo crescer. Coisas pequenas, escondidas, silenciosas. O Reino não chega com estrondo. Chega devagar, por dentro, no tempo dele.
E se hoje você se sente mais joio do que trigo, cansado, sem palavras nem pra rezar direito, a segunda leitura é um abraço: "O Espírito vem em socorro da nossa fraqueza. Pois nós não sabemos o que pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis." Que alívio. Você não precisa ter a oração perfeita. Nos dias em que só sai um suspiro, o Espírito traduz o seu silêncio diante de Deus. Estamos no Tempo Comum, esse tempo verde do crescimento sem pressa, e ele nos ensina exatamente isso: a fé amadurece na paciência, não na correria.
Deixar o joio crescer não é conformismo. É confiança de que a colheita pertence a Deus, e que a última palavra sobre a sua história não vai ser a do erro, mas a da misericórdia.
Hoje, escolha uma pessoa da sua vida que você já classificou como "joio", alguém que você julgou e arquivou. Pode ser um parente, um vizinho, um colega. Antes de dormir, reze uma dezena do terço por ela, pedindo a Deus a paciência que ele tem com você. E se sobrar coragem, mande uma mensagem simples, um "como você está?". Um gesto pequeno como semente de mostarda. Deus cuida do resto.
Que Deus abençoe sua oração.