Você já passou o dia inteiro atrás de algo — um emprego, uma resposta, uma notícia — e quando chegou até lá percebeu que ainda estava vazio? A satisfação durou o tempo de um suspiro. E no dia seguinte, de novo, a mesma corrida.
A multidão do Evangelho de hoje conhece essa sensação. Eles atravessaram o lago. Pegaram barcos, remaram, buscaram. Estavam atrás de Jesus. Mas Jesus, com a honestidade desconcertante que só ele tem, colocou o dedo na ferida: "Estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos." (Jo 6,26)
Não é julgamento. É diagnóstico.
A multidão havia comido. O estômago cheio, a memória do milagre ainda fresca — e então Jesus some. Eles partem em busca. E quando o encontram do outro lado, a primeira pergunta não é "Quem és tu?" nem "O que devo fazer?". É: "Rabi, quando chegaste aqui?" Uma pergunta de quem quer saber onde está a fonte para poder voltar lá amanhã, pegar mais pão, repetir o processo.
Jesus não responde à pergunta deles. Ele responde à necessidade deles, que era maior do que a que eles conseguiam ver. "Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna." (Jo 6,27)
E quando eles perguntam, de forma prática e honesta, "Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?", a resposta de Jesus é simples demais para parecer suficiente: "A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou." (Jo 6,29)
Só isso. Crer.
No Tempo Pascal, a Igreja nos apresenta Estêvão — um homem que creu de verdade. Creu tanto que, quando o subornaram, quando apresentaram falsas testemunhas contra ele, quando o arrastaram para o Sinédrio, o rosto dele brilhou "como o rosto de um anjo" (At 6,15). Não porque era ingênuo. Não porque não entendia o perigo. Mas porque tinha encontrado o pão que permanece e não estava mais perseguindo o que passa.
Estêvão é o retrato de quem respondeu à pergunta de Jesus com o corpo inteiro.
Na vida brasileira de todo dia, essa tensão é concreta. Você acorda, abre o aplicativo de notícias, checa o banco, responde mensagens de trabalho — ainda na cama. Antes mesmo de levantar, já está atrás de alguma coisa que tranquilize, que garanta, que sacie. O pão que passa tem muitos nomes: aprovação, segurança financeira, reconhecimento, controle.
Nada disso é errado por si mesmo. O problema é quando esses pães se tornam o destino, e não Jesus.
A Páscoa que estamos vivendo não é só a lembrança de algo que aconteceu há dois mil anos. É um convite real, hoje, a traversar o lago não atrás do que Jesus pode dar, mas atrás de quem ele é.
Hoje, antes de começar a corrida do dia — antes de checar o que precisa ser resolvido, o que está faltando, o que você precisa conquistar —, pare um minuto. Só um. E faça a pergunta que a multidão não fez: "Jesus, quem és tu para mim hoje?" Não o que ele pode resolver. Quem ele é. Deixe a resposta vir devagar. Isso já é crer. Isso já é a obra de Deus em você.
Que Deus abençoe sua oração.