Tem uma frase de Jesus que Paulo guardou e cita hoje, e que provavelmente nenhum livro de finanças vai colocar na capa: "Há mais alegria em dar do que em receber." Pensa nisso por um instante. Toda lógica que a gente respira diz o contrário. Acumule, garanta, proteja o que é seu, só dê depois que sobrar. E aí Paulo, no meio de uma despedida em prantos, lembra justamente dessa frase. Como se fosse a chave para entender por que aquela despedida está sendo daquele jeito.
Estamos na 7ª Semana da Páscoa, e a liturgia continua nos colocando diante de duas despedidas paralelas. Paulo se despede dos anciãos de Éfeso. Jesus se despede dos discípulos na oração ao Pai. Os dois estão sendo amados com choro genuíno. E os dois estão sendo chorados porque deram. Não porque acumularam. Porque deram.
Olha o que Paulo diz: "Não cobicei prata, ouro ou vestes de ninguém. Vós bem sabeis que estas minhas mãos providenciaram o que era necessário para mim e para os que estavam comigo." Ele trabalhou. Não foi pedinte espiritual. E mesmo assim diz: "ajudai os fracos, recordando as palavras do Senhor Jesus: 'há mais alegria em dar do que em receber.'"
Faz a conta que ninguém faz: as pessoas mais lembradas com saudade na sua vida — as que você ainda sente falta — não são as que mais te deram presente ou dinheiro. São as que te deram tempo, atenção, escuta. As que estavam ali quando ninguém mais estava. As que abriram a porta da casa quando você precisava. Você se lembra delas porque elas se deram. E quando elas partem, dá um aperto desses, igual ao dos anciãos de Éfeso se jogando no pescoço de Paulo.
Jesus, no Evangelho, faz uma oração estranha: "Não te peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno." Repare. Ele não pede para Deus tirar os amigos do mundo. Pede para guardá-los dentro dele. Porque o lugar de quem segue Jesus é dentro do mundo — no trabalho real, na família real, na cidade real — só que sustentado por outro fogo.
E qual é esse outro fogo? Jesus mesmo diz: "Como tu me enviaste ao mundo, assim também eu os enviei ao mundo." Você foi enviado. Não está aqui esperando o céu como quem está na fila do banco. Você está aqui para entregar alguma coisa que ninguém mais pode entregar do mesmo jeito que você.
Acontece que ser enviado custa. Vai contra a corrente de "primeiro eu, depois os outros". Cobra um certo desapego natural — não da prata, do ouro, da casa. Cobra desapego do você primeiro. Aquela vozinha que aparece antes de qualquer decisão: o que eu ganho com isso? quanto eu perco se eu fizer isso? como isso me afeta?
Hoje, escolhe uma coisa para fazer pelo outro primeiro. Uma só. Pode ser pequena. Liga para alguém que está sozinho. Manda uma mensagem para quem você sabe que está passando por algo. Resolve um problema do colega do trabalho que você poderia empurrar. Convida para almoçar uma pessoa que ninguém convida.
E observa por dentro o que acontece depois. Provavelmente não vai ser euforia. Vai ser uma satisfação meio quieta, meio nova, meio "isso aqui tem mais peso do que parece". Essa é a alegria que Jesus está falando. Não a alegria do consumo, que vem rápida e vai mais rápida ainda. A alegria de ter entregado uma parte de si — e descobrir que não diminuiu nada. Pelo contrário. Algo cresceu.
Há mais alegria em dar do que em receber. É contraintuitivo. É contra a corrente. É verdadeiro. E só quem experimenta entende.
Que Deus abençoe sua oração.