Você já reparou como, às vezes, a gente se sente mais em casa numa mesa de amigos do que numa reunião de parentes? Aquele grupo do terço, a turma do trabalho que reza junto antes do plantão, a vizinha que aparece com uma marmita quando você adoece. Tem gente que não divide o nosso sangue, mas divide a nossa fé, e de repente parece que sempre esteve por perto.
Foi mais ou menos isso que aconteceu numa cena que hoje pode soar até estranha. Jesus está falando para uma multidão quando avisam: "Olha, tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar contigo." E Ele responde com uma pergunta que faz todo mundo levantar a cabeça: "Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?" Aí Ele estende a mão para os que estão ali, ouvindo, e diz: "Eis minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe" (Mt 12,49-50).
Calma, Jesus não está dando as costas para Maria. Pelo contrário: ninguém fez a vontade de Deus com tanto amor quanto ela. O que Ele está fazendo é alargar a porta. Está dizendo que a família dele não cabe mais numa casa só, num sobrenome só. Cabe em qualquer um que resolva viver perto do coração do Pai. E isso inclui você, hoje, sentado onde estiver lendo isto.
Repare que a gente entra nessa família por um caminho muito concreto: fazer a vontade do Pai. Não é frase bonita, é jeito de viver. E qual é a vontade desse Pai? A primeira leitura entrega o retrato dele de um jeito que dá vontade de respirar aliviado. O profeta Miqueias pergunta: "Qual Deus existe, como tu, que apagas a iniquidade e esqueces o pecado?" E completa: Ele "não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia" (Mq 7,18). Deus vai "lançar ao fundo do mar todos os nossos pecados" (Mq 7,19).
Pensa nessa imagem por um segundo. O que cai no fundo do mar não volta. Ninguém fica remexendo o fundo do oceano atrás do que já afundou. É assim que Deus trata aquilo que você já entregou a Ele arrependido. A gente é que insiste em mergulhar de novo, com uma lanterna, procurando culpa velha para carregar. Ele já virou a página. O tom do Tempo Comum é exatamente esse: sem festa grande, sem luz colorida, só o verde do dia a dia, aprendendo a viver como filho de um Pai que é mais misericórdia do que cobrança.
E é aqui que as duas leituras se dão as mãos. Se o nosso Pai é assim, feito de compaixão e de segundas chances, então fazer a vontade dele é aprender a tratar os outros com essa mesma paciência. É ser, para alguém, esse irmão ou essa irmã que Jesus reconheceu na multidão. A família de Deus não se prova com discurso, se prova com gesto: quem você acolhe, quem você perdoa, quem você deixa de julgar.
Então o convite de hoje é pequeno e possível. Pense numa pessoa com quem você anda "guardando rancor", mesmo que seja um rancorzinho de nada, uma mágoa mastigada há semanas. Hoje, ainda hoje, faça um movimento na direção dela: mande uma mensagem, faça uma ligação, ou simplesmente reze o nome dela em voz alta pedindo a Deus que abençoe essa pessoa. Jogue essa mágoa no fundo do mar, do mesmo jeito que Deus faz com a sua. É assim, num gesto só, que a gente descobre que já faz parte da família que Ele foi formando ali, de mão estendida, no meio da multidão.
Que Deus abençoe sua oração.