Tem gente que acorda, toma café, pega o ônibus, cumpre a jornada, responde as mensagens e volta para casa sem sentir nada. Nem tristeza, nem alegria. Só a sensação de estar operando no automático, como um aplicativo aberto em segundo plano. Se alguém pergunta "como você está?", a resposta já sai pronta: "levando". Você já esteve nesse lugar? Talvez esteja hoje.
Estamos no Tempo Comum, e a Igreja celebra hoje a memória de São Pio X, o papa que sonhava restaurar todas as coisas em Cristo e que abriu a comunhão para as crianças. Um homem preocupado exatamente com isso: com gente que tinha religião, mas andava seca por dentro.
A primeira leitura traz uma das cenas mais impressionantes da Bíblia. Ezequiel é levado a uma planície coberta de ossos ressequidos. Não é um cemitério organizado, com flores e nomes. É um campo de derrota. E Deus pergunta: "Filho do homem, será que estes ossos podem voltar à vida?" O profeta não responde nem sim nem não. Ele devolve: "Senhor Deus, só tu o sabes."
Essa resposta é bonita porque é honesta. Ezequiel não finge otimismo. Ele apenas não fecha a porta. E é justamente aí que vem a ordem: "Profetiza sobre estes ossos." Deus não manda consertar, não manda esconder, não pula a etapa difícil. Manda falar com o que está seco.
O povo daquele tempo dizia: "Nossos ossos estão secos, nossa esperança acabou, estamos perdidos!" Talvez você já tenha dito algo parecido com outras palavras. "Não dá mais." "Cansei." "Tanto faz." E a resposta de Deus não é uma bronca nem uma lista de tarefas. É um sopro: "Porei em vós o meu espírito, para que vivais."
Mas como esse sopro chega até a gente hoje, num dia de terça qualquer, entre reunião e boleto? O Evangelho responde de um jeito quase simples demais. Perguntam a Jesus qual é o maior mandamento, esperando uma discussão técnica entre especialistas, e ele resume tudo em duas frases: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento" e "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo".
Repare que ele não separa as duas coisas. Não existe amor a Deus que dispense a pessoa do lado, e não existe amor ao próximo que se sustente sozinho, sem beber de uma fonte maior. É esse duplo movimento que devolve carne ao osso. Quando a vida resseca, quase sempre é porque um desses dois canais entupiu: ou a gente parou de conversar com Deus de verdade, ou parou de olhar gente nos olhos.
E tem uma parte dessa história que costuma passar batido. Os ossos não se levantaram sozinhos, mas também não se levantaram sem que alguém falasse com eles. Deus escolheu precisar de Ezequiel. E continua escolhendo precisar de alguém. Pode ser que hoje você seja o profeta de alguém que anda seco: o colega calado nas reuniões, a irmã que só manda áudio de dez segundos, o pai que envelheceu mais rápido do que você reparou.
Amar a Deus e amar o próximo não é um projeto para quando você estiver melhor. É o remédio para quando você não está.
Então hoje, faça duas coisas pequenas. Primeiro, separe três minutos sem o celular na mão e diga a Deus, com suas palavras, onde exatamente você anda seco. Sem enfeitar, sem discurso. Depois, ligue ou mande mensagem para uma pessoa que você sente que está no automático e pergunte de verdade como ela está. Espere a segunda resposta, não a primeira. A primeira quase sempre é "levando".
Ossos secos não se levantam por esforço. Eles se levantam porque alguém teve a coragem de falar com eles.
Que Deus abençoe sua oração.