Tem um tipo de segunda-feira que a gente conhece de cor. Planilha aberta, notificação piscando, a fila de pendências que precisa estar resolvida até as seis. Ninguém espera que algo definitivo aconteça ali. O que é grande a gente reserva para o retiro, para o fim de semana, para quando a vida der uma trégua. No meio do expediente, o plano é só atravessar o dia.
Foi exatamente no meio do expediente que Mateus foi chamado.
Hoje a Igreja celebra a Festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista. O vermelho volta aos altares, a cor de quem entregou a vida inteira. Mas a história desse apóstolo não começa num altar. Começa numa mesa de cobrança de impostos, o lugar mais desprezado da cidade. Mateus trabalhava para o império que ocupava seu próprio povo, e quem fazia esse serviço costumava levar uma parte a mais. Ele era, aos olhos da vizinhança, um traidor com boa renda.
E o Evangelho registra a cena sem nenhum drama: "Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: 'Segue-me!' Ele se levantou e seguiu a Jesus."
Repare no que não acontece. Jesus não pede que ele se explique. Não exige que devolva o dinheiro primeiro, não manda ele arrumar a vida e voltar depois. Não espera uma versão melhorada de Mateus. Chama aquele ali, sentado, no meio do turno, com a caixa de moedas na frente.
A gente costuma acreditar no contrário. Que Deus chama depois. Depois que a raiva passar, depois que a gente parar de repetir o mesmo erro, depois que a fé ficar mais firme. Enquanto isso, a gente vai adiando, como quem evita ligar para alguém porque ainda não sabe o que dizer. E Jesus continua passando pela coletoria.
A reação em volta foi imediata. Quando ele senta à mesa na casa de Mateus, junto de gente que ninguém queria por perto, alguns perguntam aos discípulos por que o mestre come com aquela turma. A resposta é curta: "Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Aprendei, pois, o que significa: 'Quero misericórdia e não sacrifício'."
Misericórdia e não sacrifício. Ou seja: Deus prefere gente que se aproxima a gente que cumpre tabela. E isso tem um lado que incomoda um pouco, porque significa que aquela pessoa que você já classificou em silêncio — o parente que só aparece quando precisa, o colega que você acha oportunista, o conhecido que tomou decisões que você reprova — está na lista de convidados da mesma mesa que você.
Paulo escreve aos Efésios que "cada um de nós recebeu a graça na medida em que Cristo lha deu", e lembra que uns são apóstolos, outros profetas, outros evangelistas, outros pastores e mestres. Nenhuma dessas funções cai do céu depois de uma vida impecável. Elas nascem onde a pessoa já está. Mateus era bom com números, com registro, com detalhe. Deus não apagou isso. Usou. O homem que anotava dívidas passou a anotar o Evangelho, e o mesmo cuidado com o detalhe virou o texto que a Igreja lê há dois mil anos.
O seu ofício também serve. A paciência que você treinou atendendo cliente difícil, a firmeza que você aprendeu criando filho, a organização que ninguém elogia mas que segura a casa. Nada disso precisa ser trocado por outra coisa para servir a Deus. Precisa só ser oferecido.
Hoje, no meio do seu expediente — não no fim do dia, não no domingo — faça uma pausa de um minuto e escolha uma pessoa que você meio que já riscou da sua lista. Mande uma mensagem simples, sem cobrança e sem lição: pergunte como ela está e espere a resposta.
É assim que a mesa de Mateus começa a ser posta de novo. Alguém se levanta no meio do turno e escolhe se aproximar.
Que Deus abençoe sua oração.