Dona Cida trabalha há onze anos na padaria da esquina. Em outubro, o seu Manoel foi visitar a filha em Portugal e deixou a chave com ela. Três semanas sem patrão. Ninguém conferindo o caixa, ninguém provando o pão. E, mesmo assim, ela chega às quatro e meia, acende o forno, separa o pão dormido para o pessoal da rua e anota cada troco no caderno de capa azul. Um cliente brincou: "Pra que tanto capricho, se ele nem está aqui?" Ela respondeu sem tirar os olhos da massa: "A padaria está."
Estamos na 29ª semana do Tempo Comum, e a liturgia desses dias vai nos levando pelo capítulo 12 de Lucas como quem sobe uma escada: um degrau por dia. Hoje o degrau é a casa entregue nas mãos de alguém enquanto o dono está longe.
Jesus fala de um administrador colocado "à frente do pessoal de sua casa para dar comida a todos na hora certa". Repare que a tarefa não é heroica. É dar comida na hora certa. É o básico, feito todo dia. E Jesus chama de feliz o empregado que o patrão, ao chegar, "encontrar agindo assim". Não fazendo algo extraordinário. Agindo assim, do jeito de sempre.
O problema começa com um pensamento pequeno: "Meu patrão está demorando". Quase não dá para perceber. Ninguém decide ficar infiel de uma vez. A demora vai afrouxando as coisas. Primeiro a gente se permite um descuido, depois outro, e de repente está tratando mal quem estava sob nosso cuidado, como o empregado que começa a "espancar os criados e as criadas". As imagens do Evangelho são duras, próprias de um tempo em que a relação entre patrão e servo era assim mesmo. Mas o recado de fundo é claro: aquilo que você faz quando ninguém está olhando mostra quem você é.
Paulo, na primeira leitura, olha para a própria vida de outro jeito. Ele se chama de "o último de todos os santos" e fala de uma graça recebida, não conquistada. O que ele administra não é dele. E é justamente por isso que ele cuida com tanto zelo.
Pedro pergunta se a parábola é para os discípulos ou para todos. Jesus não responde diretamente. Devolve a pergunta para cada um: quem é o administrador fiel? E completa com a frase que fica ecoando: "A quem muito foi dado, muito será pedido".
Vale fazer as contas com honestidade. O que foi colocado nas suas mãos? Talvez um filho adolescente que só conversa de noite. Talvez uma equipe de três pessoas que depende do seu humor para ter um dia bom. Uma mãe idosa que espera a ligação de domingo. Um talento que você sabe que tem e vive adiando. Nada disso é seu de verdade. Tudo foi confiado.
E aqui está a parte boa: vigiar, no Evangelho, não é viver com medo do ladrão. É viver com a casa em ordem porque você ama quem mora nela. Dona Cida não acende o forno por medo do seu Manoel. Acende porque tem gente que passa ali às seis da manhã contando com o pão quente. A fidelidade dela tem rosto.
Deus não é um patrão desconfiado que aparece de surpresa para pegar você no erro. Ele é o dono que confiou tanto que deixou a chave. E quando ele chega, o que ele procura é alguém cuidando dos outros "na hora certa".
Hoje, escolha uma coisa que foi confiada a você e que anda meio abandonada pela sensação de que "ninguém vai notar". Pode ser responder aquela mensagem, revisar aquele trabalho com calma, sentar para ouvir alguém da sua casa sem olhar o celular. Faça como se o dono já estivesse na porta. Porque, de algum jeito, ele sempre está.
Que Deus abençoe sua oração.