Toda vez que você entra num grupo novo, alguém faz aquela pergunta: "e você, o que faz?" A gente responde com o cargo, com a cidade, com o nome da empresa. É uma resposta que cabe em dez segundos e não diz quase nada. Mais difícil é quando alguém que te conhece de verdade pergunta: "e você, quem é você mesmo?" Aí não tem crachá que salve.
Estamos no 21º Domingo do Tempo Comum, esse tempo verde e comprido em que a fé não é feita de grandes acontecimentos, mas de perguntas que voltam. E a liturgia de hoje coloca uma delas na nossa frente, feita pelo próprio Jesus, numa estrada perto de Cesareia de Filipe.
Ele começa com uma pesquisa de opinião. "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?" Os discípulos respondem rápido, sem esforço: João Batista, Elias, Jeremias. É fácil falar o que os outros pensam. Então Jesus muda o alvo: "E vós, quem dizeis que eu sou?" A pergunta sai do plural confortável e cai no colo de cada um.
Pedro responde: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo." E Jesus faz algo inesperado. Não elogia a inteligência de Pedro. Diz que aquilo não veio de nenhum ser humano, veio do Pai. A resposta certa não foi conquistada, foi recebida. Logo depois, entrega as chaves: "Eu te darei as chaves do Reino dos Céus."
Chave é o detalhe que amarra o dia. Na primeira leitura, Deus tira Sobna do cargo e coloca Eliacim no lugar, com uma promessa: "ele será um pai para os habitantes de Jerusalém". Autoridade, ali, não é privilégio, é cuidado. Quem recebe a chave não recebe uma coroa, recebe gente para abrigar.
Paulo, na segunda leitura, olha para tudo isso e desiste de explicar: "Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos!" Deus escolhe quem quer, quando quer, e quase sempre alguém que não estava no ranking. Pedro vai negar Jesus três vezes antes do galo cantar. Mesmo assim, a chave é dele.
Isso muda o peso da pergunta. Ela não é uma prova de catequese, com resposta certa para decorar. É uma pergunta sobre confiança. Dá para saber tudo sobre Jesus e nunca ter dito a ele, com as próprias palavras, quem ele é para você. Dá para ir à missa por vinte anos e nunca ter passado dessa camada.
E dá para reparar nas chaves que já estão na sua mão. A conversa que você pode abrir com o filho adolescente que anda calado. O perdão que você segura há três anos e que tranca a porta de um lado só. O grupo da família onde uma palavra sua abre espaço ou fecha de vez. Ligar e desligar, abrir e fechar: você faz isso todo dia, no trabalho, no trânsito, no celular. A diferença está em fazer isso sabendo que é cuidado, e não poder.
Hoje, tire cinco minutos e responda a pergunta em voz alta, sem frase pronta de catecismo: "Jesus, para mim, você é..." Termine do seu jeito, mesmo que saia torta, mesmo que a resposta seja "ainda não sei direito". Depois escolha uma porta que está fechada por sua causa e abra um dedinho: mande a mensagem, faça a ligação, diga o nome. As chaves não foram dadas para enfeitar o chaveiro.
Que Deus abençoe sua oração.