Seu Tião tem 78 anos e mora num sítio perto de Poços de Caldas. Nunca instalou aplicativo de previsão do tempo. Não precisa. Ele sai para o terreiro de manhã, olha para a serra, sente o cheiro do ar e diz: "Hoje de tarde chove." E chove. O neto, que veio de São Paulo passar uns dias, conferiu no celular e ficou impressionado: o velho acertou até o horário.
Mas o mesmo seu Tião está há sete anos sem falar com o irmão que mora a dois quilômetros dali, por causa de uma cerca. Sabe ler a nuvem que vem da serra. Não sabe ler o tempo que está passando para os dois.
Continuamos na 29ª semana do Tempo Comum, e o Evangelho de Lucas avança mais um passo. Jesus olha para a multidão e fala justamente disso: "Quando vedes uma nuvem vinda do ocidente, logo dizeis que vem chuva. E assim acontece." Ele reconhece a habilidade. Gente do campo sabe ler o céu. Mas logo vem a pergunta que incomoda: "Como é que não sabeis interpretar o tempo presente?"
A palavra é forte, "hipócritas", mas o que Jesus aponta é uma distração muito humana. A gente é especialista em ler sinais que não pedem nada de nós. Sabemos se o dólar vai subir, se o time vai cair, se o trânsito vai travar na marginal. E somos péssimos para ler os sinais que pedem uma mudança. O cansaço no rosto de quem mora com a gente. O jeito como um amigo foi sumindo. A irritação que cresce toda vez que certo nome aparece na tela do celular.
Então Jesus dá um conselho muito prático, quase de advogado: quando você vai com o seu adversário ao magistrado, "procura resolver o caso com ele enquanto estais a caminho". Não espere chegar ao tribunal. Não espere o juiz. Resolva na estrada, enquanto ainda dá para conversar.
Esse "enquanto estais a caminho" é a chave do dia. A vida é esse caminho. O tempo presente é agora, com a pessoa ainda viva, com o telefone ainda funcionando, com a distância ainda sendo de dois quilômetros e não de uma sepultura.
Paulo, na primeira leitura, dá o tom de como fazer isso. Ele pede aos efésios que caminhem "com toda a humildade e mansidão", que se suportem "uns aos outros com paciência, no amor". Suportar não é engolir sapo calado. É carregar junto. É aceitar que o outro também tem seu lado da cerca. E Paulo insiste que há "um só Deus e Pai de todos". Até do irmão com quem você não fala.
Ler o tempo presente, então, é olhar para as relações como seu Tião olha para a serra. Perceber o que está se formando antes da tempestade. Aquele mal-entendido que ainda é uma nuvem pequena. Aquela mágoa que ainda cabe numa conversa de cinco minutos. Deus não pede que a gente adivinhe o futuro. Pede que a gente enxergue o hoje.
E existe uma boa notícia escondida aqui. Se ainda estamos a caminho, ainda dá tempo. Nenhuma história está fechada enquanto a estrada continua. Seu Tião pode atravessar aqueles dois quilômetros hoje à tarde, antes da chuva, levando um queijo e nenhum discurso. E você também pode atravessar a sua distância, seja ela de uma rua, de um bloqueio no WhatsApp ou de anos de silêncio.
Hoje, faça sua própria previsão do tempo. Pense em uma relação em que o céu anda carregado. Não espere a chuva cair. Mande uma mensagem, faça uma ligação, ou simplesmente dê o primeiro bom-dia. A conversa que você evita há tanto tempo talvez precise de menos palavras do que você imagina. Resolva no caminho.
Que Deus abençoe sua oração.