Tem um gesto que a gente repete dezenas de vezes por dia sem perceber: puxar a tela para baixo esperando aparecer alguma coisa nova. Notícia, mensagem, story, qualquer coisa. E quase sempre aparece mesmo. O problema é que, meia hora depois, você fecha o celular exatamente a mesma pessoa que era antes de abrir. Viu muito. Não foi tocado por nada.
Estamos na 25ª semana do Tempo Comum, esse trecho verde e longo do ano em que a Igreja não celebra nenhum grande acontecimento e justamente por isso nos obriga a olhar para a rotina. E a liturgia de hoje escolhe dois textos que falam da rotina sem nenhuma delicadeza.
O primeiro é o Eclesiastes, um dos livros mais desconcertantes da Bíblia. Ele começa assim: "Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade". E emenda uma constatação que parece escrita hoje de manhã: "O que foi, será; o que aconteceu, acontecerá: não há nada de novo debaixo do sol".
Isso não é pessimismo religioso. É honestidade. O autor está olhando para o sol que nasce e se põe, para o vento que gira e volta, para os rios que correm e o mar que nunca enche, e está dizendo uma coisa simples: o movimento não é a mesma coisa que a novidade. Dá para se cansar muito sem sair do lugar. Dá para ter uma agenda cheia, um trabalho que consome, um feed infinito, e mesmo assim viver dentro de um ciclo que só repete.
E aí o Evangelho traz um personagem que é o retrato acabado disso. Herodes ouve falar de Jesus. Fica perplexo. Faz perguntas. As pessoas comentam coisas estranhas, dizem que João Batista voltou, que Elias apareceu. E Herodes reage com uma frase que ficou: "Eu mandei degolar João. Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?"
Lucas termina com um detalhe curto e devastador: "E procurava ver Jesus".
Herodes queria ver. Só isso. Queria satisfazer a curiosidade, resolver a inquietação, entender o que estava mexendo com o seu território. Ele não queria ser mudado por Jesus, queria ser informado sobre Jesus. São coisas diferentes. Tanto que, quando finalmente encontrar Jesus, lá no julgamento, vai esperar um espetáculo, um milagre, alguma coisa que entretenha. E vai receber o silêncio.
O Eclesiastes diz que não há nada de novo debaixo do sol. O Evangelho concorda em parte: enquanto a gente só olha, de fato nada muda. Nem a informação mais extraordinária do mundo transforma quem a recebe apenas como informação. Herodes ouviu falar do Reino de Deus e continuou sendo Herodes.
O que quebra esse ciclo não é ver mais. É deixar de ser espectador. É o pedido do salmo de hoje, que é uma das orações mais bonitas da Bíblia: "Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria". Contar os dias não é ficar ansioso com o tempo que passa. É reconhecer que os dias são poucos e por isso importam, que este aqui, esta quinta-feira comum, não vai voltar.
Vale prestar atenção em como isso aparece na sua semana. Você provavelmente já sabe o que precisa fazer há um tempo. A conversa adiada com alguém da família. O pedido de desculpas que você ensaia mentalmente e nunca diz. A oração que você promete retomar quando a rotina acalmar, como se um dia ela fosse acalmar. Não falta informação. Falta sair da posição de quem observa.
Hoje, escolha uma única coisa que você já sabe que precisa ser feita e que está parada há semanas na fila do "depois". Uma só. Faça hoje, ainda que mal feita, ainda que pequena. Não porque você deve, mas porque é assim que um dia deixa de ser igual ao anterior: alguém para de perguntar quem é esse homem e começa a andar atrás dele.
Que Deus abençoe sua oração.