A reunião do conselho de classe já passava das seis da tarde numa escola estadual da zona leste. Na pauta, o nome do Kauã, 14 anos, oitavo ano. Faltas demais, notas vermelhas, uma briga no pátio em setembro. O coordenador foi direto: "Não tem mais o que fazer. Vamos pedir a transferência." Alguns professores concordaram com a cabeça. Aí a professora Célia, de Português, fechou o diário e disse: "Me dá até o fim do ano que vem. Vou ficar com ele no contraturno. Vou ligar para a avó. Se não der, eu mesma assino."
Terminamos hoje a 29ª semana do Tempo Comum. Depois de dias ouvindo Jesus falar de vigilância, de fogo e de sinais do tempo, o Evangelho de Lucas chega a uma cena que parece muito com essa reunião.
Primeiro, alguém traz a Jesus a notícia dos galileus mortos por Pilatos, e ele mesmo lembra os dezoito que morreram esmagados pela torre de Siloé. A pergunta por trás é conhecida. Será que mereceram? A gente faz isso até hoje. Um desabamento, uma enchente, uma doença grave, e logo aparece alguém nos comentários procurando o culpado, como se a desgraça fosse um carimbo de castigo. Jesus corta essa lógica pela raiz: "Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não."
Ninguém está numa posição de olhar de cima. Todos precisamos de conversão. E logo em seguida Jesus conta a parábola da figueira que, há três anos, não dá fruto.
O dono da vinha tem razão nas contas. Três anos, nada. "Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?" É a voz da eficiência, do resultado, do coordenador cansado. Mas o vinhateiro pede: "Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e colocar adubo."
Repare que ele não pede só tempo. Pede tempo e trabalho. Ele não diz "vamos esperar para ver". Diz "vou cavar, vou adubar". A paciência de Deus não é indiferença de braços cruzados. É cuidado com as mãos na terra.
A professora Célia entende isso sem nunca ter lido um comentário bíblico. Ela não prometeu milagre. Prometeu contraturno, telefonema, presença. Se o Kauã vai dar fruto, ninguém sabe. Mas ele vai saber que alguém não desistiu dele.
Paulo, na primeira leitura, fala desse mesmo jeito de crescer. Ele lembra que "cada um de nós recebeu a graça na medida em que Cristo lha deu" e que o corpo cresce "segundo uma atividade à medida de cada membro". Cada um no seu ritmo. Ninguém cresce no mesmo tempo que o outro. Algumas figueiras demoram mais.
Talvez você se reconheça na figueira. Anos tentando mudar um hábito, largar um vício, voltar a rezar, e nada de fruto. Saiba que existe alguém cavando em volta de você, pedindo por você mais um ano. Mas talvez você também seja chamado a fazer o papel do vinhateiro. Todo mundo tem um Kauã na vida: um filho que parece não reagir a nada, um colega que já foi descartado pela equipe, um amigo que todo mundo desistiu de chamar.
O mundo tem muitos donos da vinha com o machado na mão. Tem poucos vinhateiros dispostos a sujar as mãos de adubo.
Hoje, escolha uma pessoa que você já tinha, no fundo, dado por perdida. Não precisa resolver a vida dela. Faça uma coisa só de vinhateiro: uma ligação, um convite para um café, uma palavra de confiança. Cave um pouco em volta. E dê a ela, e a você também, mais um ano.
Que Deus abençoe sua oração.