Tem uma pergunta em entrevista de emprego que quase ninguém responde bem: "me fala um pouco sobre você". A gente trava. Recita o currículo, repete o que os outros dizem da gente, solta um "sou comunicativo, gosto de desafios" e sai da sala com a sensação de ter descrito um personagem, não uma pessoa. É mais fácil repetir do que dizer.
Estamos na 25ª semana do Tempo Comum, esse tempo verde e sem festa grande em que a fé é medida no dia útil, não no feriado. E a liturgia de hoje coloca duas perguntas na mesa. Uma fácil, uma difícil.
A primeira leitura já nos avisa que nada acontece fora de hora: "Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para tudo que acontece debaixo do céu." O Eclesiastes vai listando: tempo de chorar e tempo de rir, tempo de calar e tempo de falar. Não é resignação. É a constatação de que a vida tem estações, e que existe uma hora certa para cada coisa amadurecer dentro da gente.
No Evangelho, Jesus está rezando num lugar retirado, com os discípulos por perto. Ele começa pela pergunta confortável: "Quem diz o povo que eu sou?" E eles respondem rápido, sem hesitar. João Batista. Elias. Algum profeta antigo. É pesquisa de opinião, e pesquisa de opinião a gente sempre sabe responder.
Aí vem a segunda: "E vós, quem dizeis que eu sou?"
Repare no silêncio que deve ter caído ali. Porque essa pergunta não aceita citação de terceiros. Não dá para responder com o que a mãe ensinou, com o que o padre falou no domingo, com o versículo que você viu num story. Ela exige nome próprio.
Pedro arrisca: "O Cristo de Deus." Acertou a palavra. E logo em seguida Jesus explica o que essa palavra carrega: sofrer muito, ser rejeitado, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Ou seja, Pedro deu a resposta certa antes de saber o peso dela. Ele ainda ia levar anos, e uma negação de madrugada, para entender o que estava dizendo.
E é aqui que o texto respira alívio. Jesus não corrige Pedro, não devolve a resposta como quem reprova uma prova. Ele aceita a frase inacabada e continua caminhando com ele. Isso quer dizer que a sua resposta também pode estar inacabada hoje. Deus não pede versão final.
A maior parte da nossa fé costuma viver na primeira pergunta. A gente sabe o que a Igreja diz, o que a avó dizia, o que o grupo da paróquia posta. Repetir é seguro, é rápido, não expõe ninguém. Até que chega um corredor de hospital às três da manhã. Uma demissão por chamada de vídeo. Um casamento que acabou. Um exame que voltou diferente do esperado. Nessas horas, a resposta emprestada não sustenta o peso, e a segunda pergunta aparece sem pedir licença: e para você, quem sou eu?
Tempo de calar e tempo de falar, dizia o Eclesiastes. Existe um tempo em que basta escutar o que os outros dizem sobre Jesus. E existe o tempo de dizer com a sua própria boca, com as suas próprias palavras, do jeito torto que for. Talvez hoje seja esse tempo para você.
Não precisa ser uma definição teológica. Pode ser "você é quem ficou quando todo mundo foi embora". Pode ser "você é quem eu ainda estou tentando entender". Pode ser só "não sei, mas continuo aqui". Todas essas são respostas verdadeiras, e verdade inacabada vale mais que fórmula decorada.
Hoje, escolha um momento sozinho, no trajeto para o trabalho, na fila do mercado ou nos cinco minutos antes de dormir. Abra o bloco de notas do celular e escreva uma frase, só uma, começando com "Jesus, para mim você é". Sem copiar de lugar nenhum. Sem apagar e reescrever até ficar bonita. Depois releia. Essa frase é o começo da sua resposta, e ela só existe porque você parou para dar.
Que Deus abençoe sua oração.