Tem uma cena que acontece de vez em quando na vida da gente. Um problema real aparece — uma demissão, uma doença na família, um casamento em crise, uma dívida que não fecha. E, de repente, você percebe quem estava ali de verdade. Algumas pessoas somem. Outras, que você nem esperava tanto, ficam. Mandam mensagem, aparecem, oferecem ajuda concreta. E você olha e pensa: "nossa, essa pessoa fica mesmo."
O Evangelho de hoje, no meio do Tempo Pascal, traz uma imagem parecida. Jesus está falando sobre o que separa quem cuida por interesse de quem cuida por amor. E ele usa um contraste duro: o bom pastor e o mercenário.
"Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa" (Jo 10,11-12). E Jesus continua explicando: "Pois ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas."
Não importa. Essa é a frase que pega. O mercenário não é necessariamente má pessoa. Ele só não se importa de verdade. Está ali pelo salário, pelo contrato, pela conveniência. Enquanto o tempo está bom, ele aparece. Quando chega lobo, ele calcula: "isso não é problema meu" e desaparece.
A gente reconhece essa lógica de longe. Está no trabalho em que o colega some quando o projeto afunda. Está nas amizades de balada que sumiram quando você parou de curtir. Está até nas relações familiares que funcionam bem no almoço de domingo, mas viram silêncio quando alguém precisa de cuidado prolongado.
Jesus se coloca do outro lado dessa lógica. Ele é o pastor que fica. "Eu dou minha vida pelas ovelhas" (Jo 10,15). E não é frase bonita — é descrição de uma atitude inteira, que vai culminar na cruz. Ele fica quando todo mundo tinha motivo racional para fugir.
E tem um detalhe nesse Evangelho que costuma passar batido: "Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir, escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor" (Jo 10,16). O cuidado de Cristo não tem clube fechado. Ele olha para fora do redil e vê quem ainda está distante, quem ainda não se sente parte, quem foi ferido em alguma experiência religiosa e saiu. Ele não desiste dessas pessoas.
Para quem ouve essa Palavra hoje, numa segunda-feira qualquer, o convite vem em duas direções.
A primeira é pessoal: deixar-se cuidar. Talvez você tenha acostumado a ser ovelha desgarrada, a resolver tudo sozinho, a desconfiar de qualquer cuidado. Jesus está oferecendo uma pastoralidade que não cobra taxa. Você pode voltar para perto sem ter que justificar os últimos meses. A primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, mostra Pedro descobrindo que Deus não discrimina: "Quem seria eu para me opor à ação de Deus?" (At 11,17). Ele acolhe quem os outros achariam que não merecia.
A segunda direção é prática: onde é que você pode parar de ser mercenário? Pense nos vínculos da sua vida. Onde você tem aparecido só enquanto é conveniente? Pode ser no grupo da família que você silenciou quando surgiu conflito. Pode ser um amigo que está passando por algo difícil e você deixou a conversa morrer. Pode ser o voluntariado que parou quando o trabalho apertou.
Hoje, escolha um lugar onde você vai decidir ficar. Manda a mensagem que você está devendo. Liga para quem está doente. Oferece ajuda concreta — não genérica — a quem está no lobo. Não precisa ser grande. Só precisa ser real.
O bom pastor fica. E te convida a fazer o mesmo.
Que Deus abençoe sua oração.