Você já reparou no que acontece na cozinha quando alguém coloca aquele pouquinho de fermento na massa do pão? A gente sai da cozinha, vai cuidar de outra coisa, e quando volta a bacia está transbordando. Ninguém viu o momento exato em que a massa cresceu. Simplesmente cresceu. Foi por dentro, no silêncio, sem pedir licença.
Jesus escolhe justamente essa cena para falar de Deus. Nesta 17ª Semana do Tempo Comum, com o verde da liturgia nos lembrando que a vida cristã é feita de dias comuns e de crescimento paciente, o Evangelho de Mateus traz duas imagens pequenas e domésticas: uma semente de mostarda e um punhado de fermento. "O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado" (Mt 13,33).
Repare que ninguém aqui está falando de grandes espetáculos. A semente de mostarda é, nas palavras do próprio Jesus, "a menor de todas as sementes". O fermento some dentro da farinha, você nem consegue mais achar. E é exatamente isso que dá esperança para a gente. Porque quase sempre a nossa fé se sente pequena assim. Um gesto de perdão que ninguém elogiou. Uma oração feita meio no cansaço, antes de dormir. Uma palavra gentil dita para quem estava difícil de amar naquele dia. Coisas miúdas, que parecem não mudar nada.
Só que o Reino de Deus não funciona pela lógica do que é grande e barulhento. Ele funciona pela lógica da semente e do fermento: cresce por dentro, transforma de dentro para fora, e o resultado costuma ser bem maior do que o começo prometia. A semente vira árvore onde os pássaros fazem ninho. O pouco de fermento levanta a massa inteira.
Tem um contraste bonito com a primeira leitura de hoje. Jeremias recebe uma ordem estranha: comprar um cinto de linho, usá-lo, depois escondê-lo na fenda de uma pedra até apodrecer. E Deus explica: "assim como o cinto se une à cintura do homem, assim quis eu que toda a casa de Israel se unisse a mim" (Jr 13,11). O cinto apodreceu porque foi deixado longe, esquecido, desligado da pessoa. É o retrato do que acontece com a gente quando se afasta da fonte: seca por dentro, perde a serventia. O fermento é o oposto disso. Ele só funciona misturado, unido, metido na massa. Longe da farinha, o fermento não serve para nada. Perto dela, transforma tudo.
Talvez seja essa a pergunta de hoje: onde a sua vida anda mais parecida com o cinto guardado na pedra, e onde ela pode virar fermento na massa? Você não precisa carregar o mundo nas costas. Deus não pediu isso. Ele pediu que você seja pequeno e presente, misturado na vida das pessoas ao seu redor, deixando a graça agir no tempo dela.
E olha que descanso isso traz. A mulher da parábola coloca o fermento e não fica cavando a massa a cada cinco minutos para ver se cresceu. Ela confia no processo. A gente também pode fazer o filho crescer na fé sem cobrar resultado imediato, cuidar de uma amizade ferida sem exigir que sare no mesmo dia, plantar o bem sem precisar ver a árvore. O crescimento é obra de Deus. A nossa parte é ser fermento de verdade, presente e misturado.
Hoje, escolha uma "massa" concreta para fermentar. Pode ser bem simples: mande uma mensagem reconciliando com alguém de quem você se afastou, ou reserve dez minutos de silêncio para rezar por uma pessoa difícil da sua convivência, chamando ela pelo nome diante de Deus. Faça isso ainda hoje, sem esperar sentir vontade, sem esperar que fique perfeito. Coloque o seu punhadinho de fermento e siga a vida. Deus cuida do crescer.
Que Deus abençoe sua oração.