Todo mundo já esteve num grupo de mensagens onde alguém responde "fechado, conta comigo" e no dia não aparece. E todo mundo conhece o outro tipo: aquele que resmunga, diz que vai ser difícil, some por umas horas — e quando chega a hora, está lá, ajudando a carregar as cadeiras. A gente conhece os dois. Às vezes a gente foi os dois, na mesma semana.
Neste 26º Domingo do Tempo Comum, Jesus conta uma história curtíssima que cabe em três frases. Um pai pede a dois filhos que vão trabalhar na vinha. O primeiro responde "Não quero". Depois muda de ideia e vai. O segundo diz "Sim, senhor, eu vou". E não vai. Então Jesus pergunta aos chefes religiosos que o escutavam: "Qual dos dois fez a vontade do pai?"
A resposta é óbvia, e é justamente por isso que ela incomoda. Porque a gente investe muito na primeira resposta. Na intenção declarada. No perfil que diz o que a gente valoriza, na promessa feita em voz alta, no "vou começar segunda-feira". Jesus não está interessado no anúncio. Está interessado em quem apareceu na vinha.
E tem uma parte da parábola que é ainda mais dura. Jesus diz aos sacerdotes: "os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus". Ele está falando com gente religiosa, gente que sabia rezar, gente respeitada. E aponta para os que a cidade tinha descartado, dizendo que eles chegaram na frente. Não porque a vida deles fosse melhor. Porque eles mudaram de rumo quando ouviram João.
A primeira leitura de hoje já tinha aberto essa porta. O profeta Ezequiel fala de um povo que reclamava que Deus era injusto, e responde com uma promessa que vale para qualquer história: "Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida". Traduzindo: ninguém está preso no papel que já representou. O primeiro filho disse não, e o não dele não foi a última palavra.
E o segundo filho? O problema dele não foi a preguiça. Foi a aparência. Ele quis parecer obediente sem pagar o preço de ser. Por isso Paulo, na carta aos filipenses que a Igreja lê hoje, aponta para o caminho contrário: Cristo "esvaziou-se a si mesmo", desceu, serviu, não fez do próprio lugar uma vitrine. Paulo escreve para uma comunidade que estava se desgastando em competição e vaidade — e a receita dele é simples e difícil: "cada um julgue que o outro é mais importante".
Talvez o mais honesto seja admitir que a gente vive entre os dois filhos. Você promete ligar para a sua mãe e a semana passa. Você diz que vai perdoar aquela pessoa e continua evitando ela no corredor. Você jura que vai desacelerar e responde e-mail às onze da noite. Não é hipocrisia — é distância. A distância entre o que a gente quer ser e o que a gente faz quando ninguém está cobrando.
A boa notícia da parábola é que o pai não desiste de nenhum dos dois. Ele chama os dois no mesmo dia, com as mesmas palavras: "Filho, vai trabalhar hoje na vinha". Repare no "hoje". Não é para amanhã, não é para quando você estiver mais preparado, mais organizado, mais santo. É hoje. E o convite continua de pé mesmo depois do seu "não quero".
Então o convite de hoje é bem concreto: pegue uma promessa que você fez e não cumpriu — uma só, a menor delas — e cumpra ainda hoje, antes de dormir. A mensagem que ficou sem resposta. O telefonema adiado. O pedido de desculpas engasgado há semanas. Não anuncie para ninguém que você vai fazer. Só vá para a vinha.
Que Deus abençoe sua oração.