No poste em frente à casa da Rosângela, na periferia de Contagem, um casal de joão-de-barro começou uma obra no fim de agosto. Ela reparou por acaso, esperando o Uber: uma bolinha de lama grudada no alto do poste. No dia seguinte, duas. Depois, uma curva. Cada ave trazia no bico uma quantidade ridícula de barro, do tamanho de um grão de feijão. Ninguém apostaria naquilo. Em outubro, lá estava a casinha redonda, com porta e tudo, firme no meio dos fios.
A gente segue no Tempo Comum, na 30ª semana, e Jesus hoje procura imagens para explicar o Reino de Deus. Ele mesmo parece hesitar: "A que é semelhante o Reino de Deus, e com que poderei compará-lo?" E escolhe duas coisas quase invisíveis.
A primeira é a semente de mostarda, que "cresce, torna-se uma grande árvore, e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos". A segunda é o fermento que uma mulher "mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado". Nas duas, o começo é pequeno demais para impressionar. E nas duas, o resultado é abrigo e alimento para muita gente.
Repare que Jesus não fala de um Reino que cai pronto do céu, com fanfarra. Fala de um processo. De algo que acontece devagar, escondido, quase sem ninguém ver, como a massa que cresce debaixo do pano de prato. Deus tem o costume de começar pelo que ninguém fotografaria. Quem olha no primeiro dia só vê um grão, uma pitada, um bico de barro. Quem espera vê a árvore, o pão, a casa.
A primeira leitura, da carta aos Efésios, fala de casamento, e à primeira vista parece outro assunto. Mas Paulo começa com uma frase que abre tudo: "sede solícitos uns para com os outros". E fala de um amor que cuida do outro como do próprio corpo: "alimenta-a e cerca-a de cuidados". Qualquer casal que atravessou os anos sabe que é exatamente assim que uma casa se levanta. Não num grande gesto, mas em mil pequenos. O café servido antes de o outro acordar. O "chegou bem?" mandado no celular. A louça lavada sem ninguém pedir. O Salmo completa com os filhos que são "rebentos de oliveira ao redor de tua mesa". Imagens de coisas que crescem.
A gente vive numa cultura que quer ver resultado já. Meta batida no trimestre, transformação em trinta dias, antes e depois em uma semana. Ou a gente se cobra uma santidade instantânea, como se a fé fosse aplicativo que atualiza de uma vez. Aí a gente reza pela família e nada parece mudar. Tenta perdoar e a mágoa volta. Começa a ler a Bíblia e para no terceiro dia. E conclui que não adiantou.
Mas o joão-de-barro não para porque a primeira bolinha de lama parece pouca. Ele volta à poça. E volta de novo. O Reino de Deus, na sua vida, está sendo construído do mesmo jeito: uma oração curta no ônibus, um silêncio que evitou uma briga, uma visita à mãe que você quase adiou. Parece nada. É barro no bico. E, um dia, quando você menos esperar, alguém vai encontrar abrigo naquilo que você foi construindo sem perceber.
Hoje, escolha uma única coisa pequena para oferecer a Deus e a quem mora com você. Um bilhete na geladeira, uma mensagem de carinho no meio do expediente, dez minutos sem celular na hora do jantar. Faça sem esperar ver o resultado. Só leve o seu pouco de barro. Quem faz crescer é Deus.
Que Deus abençoe sua oração.