Você já participou de uma reunião onde a decisão já estava tomada antes de você entrar? Todo mundo faz as perguntas certas, levanta as dúvidas de costume — mas no fundo o resultado já estava definido. A conversa é protocolo. O que vai acontecer, vai acontecer.
O Evangelho de hoje abre com uma dessas reuniões. Os sumos sacerdotes e os fariseus se reúnem em Conselho. Na pauta: o que fazer com Jesus. O homem está realizando sinais demais. Se continuar assim, o povo vai segui-lo, os romanos vão intervir, e a estrutura toda desmorona. É uma questão de sobrevivência institucional. Pragmatismo puro.
Então Caifás, o sumo sacerdote, corta a discussão: "Não percebeis que é melhor um só morrer pelo povo do que perecer a nação inteira?"
É uma frase fria. Calculista. A lógica do sacrifício administrado — elimina-se uma peça para salvar o sistema. Caifás está pensando em política. Em controle de danos.
Mas João faz uma observação desconcertante: Caifás não falou isso por si mesmo. Sendo sumo sacerdote naquele ano, ele profetizou.
Pensa bem no que isso significa. O homem que está tramando a morte de Jesus está, sem saber, anunciando a salvação do mundo. Ele acha que está tomando uma decisão estratégica. Está, na verdade, sendo instrumento de uma história que ele não consegue ver.
Ezequiel, séculos antes, já descrevia o que Deus queria fazer: "Eu mesmo vou tomar os israelitas do meio das nações para onde foram, vou recolhê-los de toda a parte e reconduzi-los para a sua terra." Deus não espera que os planos humanos se alinhem com o dele. Ele trabalha por dentro deles — e apesar deles.
A Quaresma vai chegando ao seu fim. Estamos nos últimos dias antes da Semana Santa. A narrativa está se fechando. O cerco está se formando ao redor de Jesus. E a gente acompanha essa história sabendo o que vem depois — o que os personagens não sabem. Sabe que a decisão do Conselho vai ser o começo de algo que eles nunca conseguiriam controlar.
Na sua vida, você já sentiu que o Conselho tomou a decisão sobre você? Uma demissão que veio de cima. Um diagnóstico que não esperava. Uma relação que acabou sem que você pudesse fazer nada. Alguém com poder decide, e a lógica da situação parece fechada.
O Evangelho de hoje não diz que esses momentos não doem. Diz algo mais preciso: que os que pensam que decidem muitas vezes não estão vendo o que está sendo, de fato, realizado.
Caifás não sabia que estava profetizando. Você também pode não saber o que está sendo construído por dentro do que parece perdido.
Hoje, se você está em um desses momentos — onde a decisão foi tomada sem você, onde o cerco parece fechado — pare um instante antes de concluir que acabou. Deus trabalha por dentro da história. Até por dentro das reuniões onde você não foi convidado.
Que Deus abençoe sua oração.