Tem um momento constrangedor em toda reunião: quando alguém pergunta quem vai apresentar o trabalho do time. Todo mundo diz que tanto faz, mas quase ninguém diz isso de verdade. A gente mede o próprio valor pelo lugar que ocupa na mesa, pelo cargo escrito no crachá, pelo número de pessoas que respondem nossa mensagem no mesmo minuto. É automático. E é cansativo.
Estamos na 26ª semana do Tempo Comum, o tempo verde, o tempo do chão batido, sem festa grande no horizonte. É exatamente aqui que a liturgia de hoje coloca duas cenas sobre o que sobra de uma pessoa quando tiram dela aquilo que ela tem.
A primeira é dura. Jó perde tudo em uma tarde: rebanhos, criados, filhos. Os mensageiros chegam um atrás do outro, cada um interrompendo o anterior, como notificações que não param de vibrar. É um texto antigo, escrito para encarar uma pergunta que ainda dói: por que o justo sofre? Jó não recebe resposta pronta. Ele responde.
"Nu eu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou; como foi do agrado do Senhor, assim foi feito. Bendito seja o nome do Senhor!"
Não é resignação fria. É um homem sentado no chão, de manto rasgado, descobrindo que nada daquilo era ele. Os bens estavam com ele, mas não eram ele. Quando tudo cai, sobra alguém que ainda consegue falar com Deus. E isso, ao que parece, ninguém consegue roubar.
A segunda cena seria cômica se não fosse tão nossa. Os discípulos estão discutindo qual deles é o maior. Jesus caminha para a cruz, e o time dele está montando organograma. Ele não faz sermão. Pega uma criança, coloca junto de si e diz: "aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior".
Criança, naquele tempo, não era símbolo de fofura. Era alguém sem voz, sem posse, sem nada a oferecer em troca. Jesus põe no centro justamente quem não tem currículo. E logo depois, quando João reclama de um homem que expulsava demônios sem fazer parte do grupo, ele derruba a última fronteira: "quem não está contra vós, está a vosso favor".
Repare que é a mesma descoberta nas duas leituras, vista de ângulos diferentes. Jó aprende por perda o que os discípulos precisam aprender por escolha: você não é o que acumula, nem o degrau em que está. Ser o menor não é se diminuir. É parar de medir.
Isso muda coisas concretas. Muda o jeito de você entrar numa conversa em que já decidiu de antemão que está certo. Muda o que você sente quando um colega mais novo é elogiado na frente de todos. Muda a irritação com o pessoal da paróquia que faz do jeito deles e não do seu. Quem não precisa ser o maior fica livre para simplesmente estar com as pessoas.
E a esperança mora aí. Se o seu valor não depende do lugar que você ocupa, ninguém tem poder para tirá-lo de você. Nem uma demissão, nem um diagnóstico, nem um erro que todo mundo viu. Existe um chão embaixo do chão, e ele continua firme quando o resto some.
Hoje, escolha uma situação em que você normalmente disputaria espaço: uma reunião, uma discussão em casa, um comentário na internet. Ceda o lugar de propósito. Deixe o outro falar por último e ficar com a última palavra. Não avise ninguém que você está fazendo isso. Só repare, no fim do dia, o quanto você continua inteiro.
Que Deus abençoe sua oração.