Tem aquele momento no grupo da família em que alguém manda uma mensagem que você sabe que não está certa. Você começa a digitar. Apaga. Começa de novo. Apaga de novo. No fim manda um "kkk" ou não manda nada, porque falar ali vai custar caro: vai ter clima ruim no almoço de domingo, vai ter gente magoada, vai ter aquele silêncio esquisito. Então você engole. E segue.
Hoje a Igreja celebra o Martírio de São João Batista, uma memória de cor vermelha no meio do Tempo Comum. Vermelho é a cor de quem pagou com o sangue aquilo que disse. E o que João disse cabe em uma linha.
"Não te é permitido ficar com a mulher do teu irmão." Foi só isso. Não foi discurso, não foi campanha, não foi denúncia com holofote. Foi uma frase dita a um homem poderoso que preferia não ouvir. E foi suficiente para render prisão e, depois, uma bandeja.
O detalhe mais perturbador do relato de Marcos não é a violência. É o clima. O texto conta que Herodes "tinha medo de João, pois sabia que ele era justo e santo, e por isso o protegia. Gostava de ouvi-lo, embora ficasse embaraçado quando o escutava". Herodes gostava. Herodes se incomodava. Herodes ficava dividido. E mesmo assim mandou matar, não por ódio, mas porque tinha feito uma promessa em voz alta diante das pessoas erradas e não teve coragem de voltar atrás.
Herodes não é o vilão de bigode torcido. Herodes é o homem que perde a alma para não passar vergonha na festa.
É aí que a primeira leitura entra como um abraço firme. Deus fala a Jeremias, que também tinha todo motivo para ficar calado: "eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo... eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te".
Repare bem: Deus não promete que ninguém vai fazer guerra. Promete que a guerra não vence. É uma diferença enorme. A fé não é seguro contra o desconforto, é a certeza de que o desconforto não tem a última palavra.
A gente vive num tempo em que a covardia ficou barata e educada. Ela se chama "não vou entrar nessa", "cada um sabe de si", "não é minha praia". Às vezes é prudência de verdade, e prudência é virtude. Mas às vezes é só medo bem vestido: medo de perder o cliente, o cargo, o convite, os seguidores, a paz do grupo. João morreu por uma frase. A maioria da gente só precisa de coragem para uma conversa.
Talvez seja dizer ao colega que aquela piada sobre a estagiária não teve graça. Talvez seja avisar o amigo que o negócio dele está passando do ponto. Talvez seja assumir na reunião que o erro foi seu, e não do time. Talvez seja, dentro de casa, dizer "isso me machucou" em vez de bater a porta e fingir por mais três meses que está tudo bem.
Nenhuma dessas frases vai ser aplaudida. Quase todas vão criar um silêncio incômodo de alguns segundos. E é exatamente nesses segundos que a coragem mora.
João Batista não precisou ganhar. Precisou ser fiel. O Reino não cresce por vitórias barulhentas. Cresce por gente que, na hora de escolher entre a verdade e o clima bom, escolhe a verdade e aceita pagar o preço do desconforto.
Hoje, escolha uma frase que você vem adiando. Uma só. Escreva antes, se ajudar. Diga sem acusar, sem ironia, sem plateia: olhando nos olhos ou numa mensagem direta, nunca no grupo. Depois respire e entregue o resto a Deus, que é muro de bronze para quem fala a verdade com amor.
Que Deus abençoe sua oração.