Tem uma palavra que a gente usa o dia inteiro sem perceber o estrago que ela faz: "primeiro". Primeiro eu termino esse projeto, aí eu volto a rezar. Primeiro eu organizo a casa, aí eu ligo para o meu pai. Primeiro eu resolvo essa dívida, aí eu penso no que Deus quer de mim. A palavra parece inocente. Ela só está pedindo um pouquinho de tempo. Mas repare que ela nunca acaba: sempre aparece outro "primeiro" na fila.
No Evangelho de hoje, três pessoas cruzam com Jesus na estrada. E duas delas usam exatamente essa palavra. "Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai." "Deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares." Não são desculpas ruins. Enterrar o pai é um dever sagrado. Despedir-se da família é básico de educação. Mesmo assim, Jesus responde de um jeito que desconcerta: "Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus."
Vale entender o gesto. Quem ara a terra com o arado antigo precisa fixar o olhar num ponto à frente para que o sulco saia reto. Basta virar o rosto por um instante e a linha entorta. Jesus não está proibindo você de amar sua família nem de cuidar dos seus mortos. Ele está dizendo algo sobre a direção do seu olhar. Sobre onde o seu rosto está apontado enquanto a vida acontece.
E a primeira leitura ajuda a entender por que isso custa tanto. Jó está exausto de um Deus que ele não consegue enxergar: "Se passa junto de mim, não o vejo, e quando se afasta, não o percebo." É uma das frases mais honestas da Bíblia. Jó não perdeu a fé, ele perdeu a nitidez. E quando a gente não vê com clareza para onde está indo, é natural olhar para trás, para o que já é conhecido, para o que já está resolvido.
Hoje a Igreja celebra a memória de São Jerônimo, o homem que passou mais de trinta anos numa gruta em Belém traduzindo a Bíblia inteira do hebraico e do grego para o latim. Jerônimo era genioso, brigava com meio mundo, tinha uma língua afiada. Mas ele fez uma escolha e não olhou para trás. Deixou Roma, deixou o prestígio, deixou a carreira que estava construindo. Ele dizia uma frase que atravessou os séculos: quem ignora as Escrituras ignora o próprio Cristo.
É aí que as duas leituras se encontram. A queixa de Jó é a queixa de quem não consegue enxergar Deus. A vida inteira de Jerônimo foi uma resposta a essa queixa: Deus se deixa encontrar na Palavra. Não numa visão espetacular, não numa certeza de raio caindo do céu. Numa página aberta, num versículo lido devagar, num texto que você já leu dez vezes e que hoje diz outra coisa.
O engraçado é que a gente trata a Escritura exatamente como trata a oração e as pessoas que ama: com um "primeiro". Primeiro o feed, primeiro os áudios do grupo, primeiro os e-mails, e aí, se sobrar tempo antes de dormir, talvez a Palavra. Só que nunca sobra. A tela sempre ganha, porque a tela não pede nada e a Palavra pede que você fique parado.
Jesus não está pedindo que você abandone tudo e vá morar numa gruta. Ele está pedindo que você pare de adiar o essencial em nome do urgente. Que a mão fique no arado tempo suficiente para a linha sair reta.
Hoje, faça o "primeiro" mudar de lugar. Antes de abrir qualquer aplicativo pela manhã, leia o Evangelho de hoje inteiro, os seis versículos de Lucas. Leva menos de dois minutos. Depois escolha um versículo, um só, e carregue ele com você durante o dia. Quando vier a vontade de conferir o celular na fila do banco, no ponto de ônibus, no elevador, repita esse versículo em vez de desbloquear a tela. Jerônimo levou trinta anos para traduzir a Bíblia. Você tem hoje para deixar uma frase dela te traduzir.
Que Deus abençoe sua oração.