Domingo, oito da noite, grupo do condomínio num prédio da Zona Leste de São Paulo. Dona Cida, do apartamento 42, escreve devagar, com erro de digitação: "alguém pode me levar na UPA? minhas pernas incharam muito". A mensagem fica ali. Os dois tracinhos azuis aparecem, um atrás do outro. Trinta e oito pessoas visualizam. Ninguém responde. Alguém lembra, meia hora depois, que o grupo é "só para assuntos do condomínio".
Estamos na 30ª semana do Tempo Comum, e o Evangelho de hoje coloca Jesus numa situação parecida. É sábado, ele está na casa de um dos chefes dos fariseus, e Lucas faz questão de anotar: "eles o observavam". Todo mundo de olho. Diante dele há um homem hidrópico, alguém com o corpo inchado de líquido, doente, desconfortável, exposto.
Jesus faz uma pergunta simples: "A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?" E a resposta é a parte mais dura do texto: "eles ficaram em silêncio".
Esse silêncio não é de quem não sabe. É de quem sabe e prefere não se comprometer. Se disserem que sim, contrariam a regra que defendem. Se disserem que não, ficam do lado errado de um homem doente, na frente de todos. Então calam. Observam. Esperam para ver o que o outro vai fazer.
Jesus não espera. "Tomou o homem pela mão, curou-o e despediu-o." Três verbos, nenhum discurso. Ele não pede autorização à plateia nem espera o clima ficar favorável. Depois, sim, ele explica, com uma pergunta que qualquer pai entende: se o seu filho cai num poço, você fica consultando o calendário antes de puxar? Ninguém consegue responder. Porque, no fundo, todo mundo sabe que o amor não pede licença ao relógio.
A gente conhece bem esse silêncio que observa. Ele aparece na reunião de trabalho quando um colega é humilhado e todo mundo olha para a tela do notebook. No grupo da família quando um primo some por meses e ninguém pergunta se ele está bem. Na calçada quando alguém passa mal e a roda de celulares se forma antes de alguém chamar o SAMU. Não é maldade. Quase sempre é cálculo: e se eu me meter e der errado? E se não for problema meu? E se alguém já estiver resolvendo?
Paulo, na primeira leitura, reza por uma comunidade e pede uma coisa bonita: "que o vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência, para discernirdes o que é o melhor". Repare: o amor que cresce não é o que sabe todas as regras. É o que aprende a discernir o que importa na hora. O que é o melhor para a Dona Cida às oito da noite de domingo? Não é um debate sobre a finalidade do grupo. É uma carona.
E Paulo ainda diz outra coisa que tira um peso das costas: "aquele que começou em vós uma boa obra, há de levá-la à perfeição". Às vezes o que trava a gente não é falta de amor, é medo de não dar conta. Você não precisa ser herói para sair do silêncio. Não precisa resolver a vida inteira de ninguém. Deus já começou algo em você, e ele termina. A sua parte é o primeiro gesto, o "tomou pela mão".
Hoje, repare num silêncio em que você está participando. Pode ser uma mensagem visualizada e deixada para depois, um pedido de ajuda que você torceu para outra pessoa atender, um colega que está visivelmente mal e que ninguém chama para conversar. Quebre esse silêncio com uma ação pequena e concreta: responda, ligue, ofereça a carona, pergunte "você precisa de alguma coisa?". Não espere a situação ideal nem o dia certo. Jesus não esperou o sábado acabar.
Que Deus abençoe sua oração.