Formatura de uma turma de técnico em enfermagem, num auditório alugado em Belo Horizonte. Na hora da foto oficial, começa aquela movimentação conhecida: quem vai ficar no meio, perto da paraninfa? Uns se esticam, outros dão um passo discreto para a frente, alguém ajeita o cabelo e se encaixa no centro com um sorriso já pronto. Lá na ponta, meio cortada pelo enquadramento, fica a Rosângela. Foi ela quem passou o ano inteiro emprestando anotações, cobrindo plantão de estágio e segurando a turma unida no grupo de mensagens. Na foto, quase não aparece.
Estamos no último dia de outubro, na 30ª semana do Tempo Comum, e amanhã a Igreja celebra a Solenidade de Todos os Santos. Vale guardar essa data em mente enquanto escuta o Evangelho de hoje.
Jesus está observando como as pessoas escolhem onde ficar. Ele percebe a disputa silenciosa pelos lugares de honra e conta uma parábola sobre uma festa de casamento. Quem corre para a frente corre o risco de ouvir, diante de todos: "Dá o lugar a ele". Quem escolhe o último lugar pode ouvir outra frase: "Amigo, vem mais para cima". E ele fecha com uma sentença que atravessa os séculos: "quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado".
Seria fácil ler isso como uma dica de etiqueta, ou até como uma estratégia esperta: fique atrás para ser chamado para a frente. Mas Jesus não está ensinando a ganhar a disputa por outro caminho. Está desmontando a disputa. O ponto não é onde você senta. É quem decide o seu valor. Quem se promove precisa ficar o tempo todo defendendo o próprio lugar. Quem recebe o lugar das mãos de quem convidou pode descansar.
Paulo, na primeira leitura, mostra como isso fica na vida real. Ele está preso, sem saber se vai viver ou morrer, e escreve: "para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro". Ele confessa que preferia partir para estar com Cristo, mas conclui: "para vós é mais necessário que eu continue minha vida neste mundo". Paulo escolhe o lugar que serve aos outros, não o que seria melhor para ele. E ainda se alegra quando outros anunciam Cristo, mesmo "com segundas intenções". Ele não precisa ser o centro da foto. Basta que Cristo apareça.
A gente vive no meio de pequenas disputas pelo centro. No trabalho, quem apresenta o projeto que outro fez. Na família, quem precisa ter a última palavra na discussão sobre o feriado. Nas redes, quem mede o próprio dia pelo número de curtidas. E dentro da própria igreja também: quem lê na missa, quem aparece no aviso, quem é lembrado no agradecimento. Nada disso é crime. Mas cansa. Viver tentando garantir o lugar da frente é viver com medo de ser mandado para trás.
Os santos que a gente celebra amanhã são, quase todos, gente que ficou na ponta da foto. Santa Dulce dos Pobres, levando doentes para um galinheiro improvisado em Salvador porque não havia outro lugar. O Cura d'Ars, passando horas no confessionário de uma vila esquecida no interior da França. E uma multidão de mães, avós, operários e catequistas cujos nomes ninguém guardou. Ninguém disputou o centro. E foi justamente para eles que o dono da festa disse: "Amigo, vem mais para cima".
Hoje, escolha deliberadamente um lugar de trás. Deixe o colega apresentar a ideia que também era sua, sem precisar corrigir o crédito. Elogie em público alguém que costuma ficar na ponta. Ou, na próxima conversa, deixe o outro terminar a história sem precisar contar uma melhor. E se alguém como a Rosângela passar pela sua cabeça, mande uma mensagem dizendo que você viu tudo o que ela fez.
Que Deus abençoe sua oração.